Elvis Presley: a conturbada relação do Rei do Rock com seu empresário
Novo livro aborda sobre a conturbada relação de Elvis com o controverso coronel Tom Parker, empresário do artista

Elvis Presley pode ter sido o rosto e a voz que mudaram para sempre a história da música popular, mas talvez sua trajetória não tivesse tomado as mesmas proporções sem a figura enigmática de seu empresário, o coronel Tom Parker.
Nascido Andreas Cornelis van Kuijk, na Holanda, Parker fugiu de seu país ainda jovem, desembarcando nos Estados Unidos sem documentos. Lá, reinventou-se por completo: adotou a identidade de “Tom Parker” e criou uma biografia que misturava verdades e invenções.
Sua habilidade para negócios e para construir narrativas fez dele um dos empresários mais excêntricos e controversos do show business. Ao conhecer Elvis em meados da década de 1950, Parker enxergou algo que poucos eram capazes de perceber: não apenas um cantor talentoso, mas um fenômeno cultural pronto para explodir.
A parceria começou oficialmente em 1955, quando Parker assumiu a carreira do jovem artista que, até então, era apenas uma promessa no cenário do country e do rhythm and blues. Em pouco tempo, porém, Elvis seria transformado em um ídolo nacional. Essa ascensão meteórica se deu, em parte à astúcia de Parker, que sabia negociar contratos, manipular a imprensa e enxergar oportunidades onde outros viam riscos. Foi Parker , inclusive, quem arquitetou os primeiros grandes acordos de Elvis com gravadoras, redes de televisão e, mais tarde, com Hollywood.
Figura controversa
Durante muito tempo, Parker foi descrito por críticos e até mesmo por pessoas próximas a Elvis como um homem ganancioso, que explorava seu cliente em busca de lucros exorbitantes. De fato, sua gestão financeira foi marcada por escolhas questionáveis, como contratos que favoreciam desproporcionalmente seus próprios ganhos. O exemplo mais famoso é a divisão de 50% nos lucros de apresentações em Las Vegas, um percentual praticamente inédito no mercado. Contudo, para a crítica de cinema Stephanie Zacharek, que escreveu artigo para a Time, reduzir Parker apenas a um explorador seria ignorar a complexidade da relação que manteve com Elvis.
O livro “O Coronel e o Rei: Tom Parker, Elvis Presley e a Parceria que Abalou o Mundo”, de Peter Guralnick, explora essa ambiguidade. O autor, que teve acesso a uma série de arquivos relacionados ao Rei do Rock, de recibos de gás a contratos, além de cartas de Parker, destaca que o empresário, embora obcecado por dinheiro e status, nutria pelo artista um afeto confuso, que beirava a devoção. Não era, em sua visão, apenas um empresário frio. Na verdade, em muitos momentos, agia como uma figura paterna, buscando proteger o cantor de suas próprias tendências autodestrutivas, como quando o americano fez uma piada grosseira no palco e o holandês o chamou de lado para repreendê-lo.
No entanto, se, por um lado, ele impôs disciplina em uma carreira que poderia facilmente ter se desviado diante do temperamento impulsivo de Elvis, por outro, suas decisões rígidas e seu apego ao lucro imediato limitaram algumas possibilidades artísticas do astro.

Shows? Apenas nos EUA
Um exemplo disso foi sua resistência em permitir que Elvis fizesse turnês internacionais. Parker, sendo imigrante ilegal nos Estados Unidos, temia não conseguir voltar ao país caso saísse. Assim, prendeu o cantor ao território norte-americano, privando fãs do mundo inteiro de vê-lo ao vivo. Essa limitação, somada a contratos exaustivos em Las Vegas, alimentou a sensação de que o músico estava preso a um ciclo repetitivo de shows, sem espaço para ousadias criativas.
Ainda assim, é inegável que Parker tinha um faro único para transformar Elvis em marca global. Ele entendeu o poder da imagem, investiu em merchandising como poucos na época e fez do nome Presley um sinônimo de fenômeno cultural. O empresário também tinha uma habilidade incomum de se conectar com os bastidores da indústria do entretenimento, garantindo que Elvis tivesse espaço privilegiado em redes de TV, filmes e rádios.
Críticas
A fonte destaca que Parker tinha seus próprios demônios: era um jogador compulsivo, hábito que corroía não apenas sua fortuna, mas também os raros vínculos pessoais que conseguia manter. Além disso, embora parentes na Holanda tenham tentado retomar contato ao longo dos anos, ele recusou todas as aproximações, afinal, eram lembranças de uma vida anterior que havia decidido enterrar para sempre.
Quando Elvis morreu, em 1977, Parker foi alvo de críticas severas. Muitos o culparam por sobrecarregar o astro com agendas desumanas e por privilegiar lucros em detrimento da saúde de seu cliente, que declinou devido ao abuso de substâncias. Outros, porém, reconheceram que ele fora um arquiteto decisivo para a construção do mito Presley.