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O museu da Filadélfia que reúne as mais estranhas peculiaridades da história da medicina

Bizarro museu de ciência chama a atenção por sua coleção macabra que abriga de órgãos a fetos com deformidades preservados desde o século 19

Esqueletos de gêmeos siameses e siameses natimortos do século 19 - Crédito: Divulgação/Museu Mütter da Filadélfia

O bizarro Museu Mütter, na Filadélfia, chama a atenção por abrigar uma coleção nada comum, que inclui de instrumentos médicos antigos a raridades anatômicas. É lá que se encontram, por exemplo, as únicas amostras conhecidas do cérebro de Albert Einstein e também o tumor da mandíbula do presidente americano Grover Cleveland.

Esqueletos, fetos com deformidades preservados em potes e órgãos de variados tipos completam o acervo do local que, à primeira vista, poderia ser confundido com o laboratório de um cientista louco. Sua origem, no entanto, homenageia um dos cirurgiões mais respeitados da medicina americana: Thomas Dent Mütter.

Origem do museu

Nascido na Virgínia, em 1811, e órfão aos oito anos, Mütter formou-se em Medicina pela Universidade da Pensilvânia em 1831. Logo abriu consultório na Filadélfia, conquistando reputação pela empatia e pela disposição de atender até casos considerados “perdidos”, especialmente pacientes com desfigurações severas. Pioneiro na adoção da anestesia com éter na cidade, tornou-se referência no tratamento de condições raras.

Paralelamente à prática clínica, Mütter reunia espécimes médicos, curiosidades anatômicas e materiais de estudo, usados nas aulas que ministrava. Essa coleção, somada a uma doação de US$ 30 mil, formou o núcleo inicial do museu, inaugurado em 1863, apenas quatro anos após sua morte, causada por gota e doença pulmonar. O acervo original contava com 1.700 peças; hoje, são mais de 25 mil, incluindo uma vasta biblioteca e arquivos de pesquisa mantidos pelo College of Physicians of Philadelphia.

Verrugas genitais e mãos humanas com gota; amostras do século 19 – Crédito: Divulgação/Museu Mütter da Filadélfia

Ferimentos de guerra

O museu mantém exposições permanentes e temporárias. Uma das mais marcantes, chamada “Corpos Quebrados, Espíritos Sofredores: Ferimentos, Morte e Cura na Guerra Civil da Filadélfia”, explorava ferimentos de guerra, suas formas de tratamento e a experiência de viver com essas lesões.

A mostra incluía até mesmo uma demonstração interativa simulando a amputação de um braço. Outra experiência marcante foi “Anatomia de Grimm: Magia e Medicina”, que investigava o lado mais sombrio dos contos de fadas dos irmãos Grimm, traçando paralelos com práticas como o enfaixamento dos pés na China.

Mas embora o Mütter seja celebrado pelo valor científico e histórico, críticas sobre a ética da exibição de restos humanos sempre acompanharam a instituição. Os curadores, historicamente, defendiam o caráter educativo do acervo, muitas vezes respondendo às polêmicas com ironia.

Essa postura mudou em setembro de 2022, quando Kate Quinn assumiu a direção. Como destacou o portal All That’s Interesting, logo em seus primeiros meses, a administradora removeu a maior parte do conteúdo digital do museu para revisão e criticou administrações anteriores por suposta falta de padrões éticos. Já no ano de 2023 declarou à revista Philadelphia: “Ainda acredito no poder das coleções para ensinar. Mas a ética tem que estar na vanguarda do que você está fazendo.”

Crise administrativa

As mudanças provocaram reação imediata: funcionários denunciaram clima interno tenso, e 13 renunciaram nos primeiros nove meses de sua gestão. Na época, o Wall Street Journal publicou um artigo opinativo de um ex-diretor intitulado “A cultura do cancelamento chega ao museu mais estranho da Filadélfia” e petições pedindo a saída de Quinn circularam online.

Em 2024, a WHYY noticiou que dois doadores — que haviam cedido partes de seus corpos para o acervo — haviam pedido a devolução das amostras. Robert Pendarvis, portador de acromegalia, doara seu coração e participara de vídeos educativos para médicos, retirados do ar na nova gestão.

Eles não estão deixando que seja usado pela razão pela qual eu o dei ao museu… Eu acho que eles são mais desrespeitosos com os doadores que doaram ao museu para educação, e o aspecto educacional de sua doação está sendo esmagado”, disse ele.

Rachel Lance, que doou um tumor benigno de grandes dimensões, também questionou a instituição. Segundo ela, Quinn teria afirmado que, uma vez em posse de tecido humano, o museu poderia “fazer o que quisesse” com ele, sem prestar contas às autoridades ou doadores, visão essa que contraria as diretrizes do Conselho Internacional de Museus e da Aliança Americana de Museus.

Nova liderança

A crise se estenderia até abril de 2025, quando Quinn deixou o cargo. Em seguida, o College of Physicians anunciou que as historiadoras da ciência Erin McLeary e Sara Ray assumiriam a liderança. Na ocasião, um funcionário fez a seguinte declaração à WHYY: “Estamos agora em uma posição em que temos as pessoas certas para avançar com essas informações de uma forma que seja responsável e fiel à natureza do museu e da coleção, e não será uma espécie de processo destrutivo”.

Apesar das controvérsias, há consenso entre os membros da equipe do museu: o Mütter, com toda sua estranheza, possui valor histórico e científico inestimável. Contudo, o desafio dos novos diretores será preservar seu caráter único, conciliando o fascínio pelo macabro com padrões éticos sólidos.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.