Winston e Splash: A envolvente história dos ornitorrincos de Winston Churchill
Em plena Segunda Guerra Mundial, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill não desistiu de possuir um ornitorrinco com seu nome; confira!

Na Austrália, como muitos já sabem, existem várias espécies de animais consideravelmente raras e com características únicas, que praticamente só podem ser encontradas lá. Wombats, cangurus e coalas estão apenas no começo da lista, e certamente um exemplar que chama atenção é o ornitorrinco.
Esse animal é uma verdadeira mistura de várias características estranhas. É um mamífero semiaquático, que possui bico de pato e bota ovos, além de também ser peludo, venenoso e até mesmo brilhar no escuro. Facilmente, ele chamaria atenção de qualquer entusiasta da vida selvagem — e foi o que aconteceu com o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, em plena Segunda Guerra Mundial.
Na época, o premiê britânico pediu que a Austrália lhe enviasse um ornitorrinco vivo, mas a história toda envolveu mais de um espécime. Mais especificamente, dois animais foram enviados a Churchill: Splash e Winston. Entenda mais sobre essa história!
Pedido idiota
Churchill era conhecido por manter um zoológico, que já incluía espécies não comuns à Inglaterra, como cangurus e cisnes negros. Mas em 1943, dois anos antes do fim da Segunda Guerra, ele pediu ao então ministro das Relações Exteriores da Austrália, Herbert “Doc” Evatt, se poderia ter meia dúzia de ornitorrincos — o que Gerald Durrell, dono do zoológico, descreveu como um pedido “magnificamente idiota”.

Conforme escreveram Nancy Cushing, especialista em história ambiental da Universidade de Newcastle, e Kevin Markwell, Southern Cross University, no artigo ‘Platypus diplomacy: animals gifts in international relations’, em 2009, os esforços para atender ao pedido de Churchill foram motivados pelo desejo de garantir a “afeição pessoal” do premiê britânico por uma Austrália “que se sentiu abandonada durante a guerra”.
O feito de transferir o ornitorrinco teria sido aclamado pelos australianos, e vê-lo [no Zoológico de Londres] teria lembrado os londrinos em dificuldades de seus primos australianos, que também enfrentavam as duras realidades da guerra, ao mesmo tempo em que elevou o moral ao proporcionar a oportunidade de ver um animal exótico pela primeira vez”, escreveram.
Então, autoridades responsáveis por atender ao pedido de Churchill pediram ajuda a David Fleay, considerado o “pai da conservação” da Austrália, para garantir o envio de pelo menos um ornitorrinco ao premiê britânico.
“Winston Churchill encontrou tempo repentinamente no meio da guerra para tentar concretizar o que era, aparentemente, uma ambição há muito acalentada… ele chegou a contatar nosso primeiro-ministro pedindo nada menos que seis ornitorrincos!”, escreveu ele em seu livro ‘Paradoxical Platypus: hobnobbing with duckbills’, de 1980. Fleay ainda descreveu essa situação como o “choque de uma vida” e “um problema tremendo que caiu direto no meu colo”.
Logo de cara, Fleay rejeitou a possibilidade de enviar seis ornitorrincos, mas chegou a capturar vários, e selecionou um para tal missão. Ele foi batizado de Winston, em homenagem ao primeiro-ministro, e também recebeu um espaço próprio com tocas e um tanque de natação que poderia usufruir durante a viagem de navio ao Reino Unido, e um tratador próprio, treinado por Fleay, para cuidar dele.
“Achei que era uma coisa muito estranha de se fazer quando você está governando um país, governando uma guerra”, opinou Stephen, filho de Fleay, ao Guardian Australia. Vale mencionar que o envio era uma missão secreta na época, mas Stephen acabou descobrindo, e garante que seu pai supervisionou tudo.

Splash
Para desenvolver seu trabalho com Winston, Fleay se baseou no trabalho de seu antecessor no Santuário de Healesville, Robert Eadie, que foi um dos pioneiros nos tratamentos com ornitorrincos em seu tempo. Stephen conta: “ocupamos sua casa original quando meu pai se tornou diretor em 1937 e 1938. Ele fez muito trabalho pioneiro com o ornitorrinco, depois meu pai assumiu o trabalho dele”.
Antes de Fleay, Eadie foi o primeiro a conseguir manter outro ornitorrinco em cativeiro até sua morte, em 1937. Esse animal, batizado de Splash, foi bastante importante, pois antes dele não se sabia como esses animais, que são extremamente sensíveis, poderiam sobreviver fora de seu habitat natural.
Inclusive, quando Splash morreu, seus restos foram preservados, cuidadosamente embalados e secretamente despachados para Londres. Ele foi acompanhado por uma descrição científica do ornitorrinco encadernada em couro, e recebido diretamente por Churchill, que ficou encantado com o animal, e até mesmo o exibiu em sua mesa.
Pesquisas acadêmicas inclusive constataram que Splash possivelmente estava a mesa de Churchill quando a Operação Ornitorrinco — uma série de missões de reconhecimento em Bornéu, uma ilha na Ásia — estava em andamento.
Acho que uma coisa que adoraríamos ter encontrado, e que se diz existir, é uma fotografia de Splash na mesa de Churchill. Não houve realmente nenhuma discussão sobre [a viagem de Splash a Londres]. E isso foi um grande avanço”, escreveu Cushing no artigo.
Já Natalie Lawrence, da Universidade de Cambridge, escreveu na BBC Wildlife Magazine que Splash se tornou uma “pequena celebridade” na Austrália, antes de ser enviado como um “presente temporário” para Churchill, enquanto o envio de Winston vivo ainda era planejado.
“[Splash] tornou-se quase totalmente domesticado graças ao treinamento que recebeu de Robert Eadie, que, por acaso, certa vez salvou a vida de Churchill na Guerra dos Bôeres, na África do Sul”, escreveu Lawrence. Essa ocasião mencionada se refere a quando Churchill foi mantido em cativeiro, e supostamente Eadie era parte da equipe que o ajudou a escapar.
Morte de Winston
O ornitorrinco Winston partiu no navio MV Port Philip, em direção ao Reino Unido, mas apesar dos esforços empregados para seu bem-estar, ele acabou morrendo apenas dois dias antes de chegar à costa britânica. E a mídia da época noticiou — muito provavelmente a mando das autoridades locais — que isso aconteceu devido aos alemães.
Segundo o Adelaide’s the News em 1º de novembro de 1945, Churchill queria um ornitorrinco australiano em meio às preocupações da guerra, e “teria obtido um espécime, um macho jovem e robusto, não fosse pelos submarinos alemães”.
Supostamente, quando o navio encontrou os tais submarinos alemães, ele foi atingido por cargas de profundidade, que levaram Winston a morrer de choque. Fleay também escreveu que uma concussão forte poderia matar esse animal, extremamente sensível.
“Afinal, um pequeno animal equipado com um bico nervoso e supersensível, capaz de detectar até mesmo os movimentos delicados de um mosquito no fundo de um riacho na escuridão da noite, não pode esperar lidar com atrocidades causadas pelo homem, como explosões violentas”, escreveu Fleay.
No entanto, mais recentemente, estudantes da Universidade de Sydney que estudavam as coleções de Fleay nos Arquivos do Museu Australiano disseram que esse não foi o único fator para a morte do animal. Além das explosões, a escassez de minhocas para alimentá-lo e o estresse pelo calor também teriam influenciado na tragédia.

Em um diário de bordo do navio, é indicado que as temperaturas do ar ultrapassavam os 30 ºC, enquanto a água, 27 ºC, durante cerca de uma semana, quando o navio atravessava águas equatoriais. Como os ornitorrincos não são capazes de regular a temperatura corporal quando o ambiente supera os 25 ºC, “o estresse pelo calor por si só teria sido suficiente para matar Winston”, escreveram os estudantes.
“No entanto, é importante observar que as restrições alimentares e o choque de uma carga de profundidade, em combinação com o estresse pelo calor, provavelmente tiveram um impacto adicional no bem-estar de Winston e juntos contribuíram para sua morte”, concluem.