Relatório revela queda histórica na cobertura de corais da Grande Barreira de Corais
Grande Barreira de Corais sofre a maior redução em 36 anos; um alerta urgente para a crise climática e a preservação dos recifes

Um novo relatório divulgado pelo Instituto Australiano de Ciência Marinha (Aims) revela que a Grande Barreira de Corais enfrentou sua maior redução anual na cobertura de corais vivos em duas das três áreas monitoradas desde 1986.
A pesquisa, que documenta de forma abrangente os impactos devastadores do evento de branqueamento massivo ocorrido no início de 2024 — considerado o mais extenso e severo já registrado para a Grande Barreira — apresenta dados alarmantes sobre a saúde do maior sistema recifal do mundo.
Nos meses subsequentes ao evento, os cientistas descreveram a situação ao redor da Ilha Lizard como um verdadeiro “cemitério de corais”, enquanto um estudo relatou uma perda de 40% da cobertura coralina na Ilha One Tree, localizada ao sul.
Desde 1986, a Aims realiza anualmente levantamentos subaquáticos para avaliar a saúde e a extensão dos corais. O relatório deste ano revela que, na seção norte da barreira, que abrange desde Cooktown até o extremo norte da Capela York, os efeitos combinados do branqueamento, de dois ciclones e das inundações resultantes causaram uma diminuição de 25% na cobertura coralina.
No segmento sul, que vai de Mackay até o norte de Bundaberg, a redução foi ainda mais acentuada, atingindo 30%. Ambas as zonas apresentaram as maiores quedas anuais já registradas. Na seção central, que conseguiu escapar das piores condições de calor em 2024, a cobertura coralina caiu 13%.
Preocupação
O Dr. Mike Emslie, responsável pelo programa de monitoramento a longo prazo da Aims, expressou preocupação com a crescente volatilidade da cobertura coralina. “Tem sido um ano muito impactante nas nossas pesquisas, com as maiores perdas que já testemunhei em mais de trinta anos de trabalho nesta área”, afirmou Emslie.
Ele acrescentou que essa instabilidade é um sinal claro de um sistema em deterioração. “Estamos observando níveis recordes de cobertura coralina que rapidamente são revertidos em quedas igualmente significativas”, destacou.
Após um período relativamente tranquilo em relação aos impactos de ciclones e eventos de branqueamento nos cinco anos anteriores ao evento de 2024, algumas áreas chegaram a registrar níveis máximos na cobertura coralina. No entanto, conforme Emslie observou, essa recuperação era impulsionada principalmente por corais do gênero Acropora, que são mais vulneráveis ao estresse térmico.
“Nós já havíamos alertado que tudo poderia mudar rapidamente em um único ano e agora estamos aqui para confirmar isso”, comentou Emslie. Atualmente, a cobertura coralina se alinha novamente com as médias históricas.
Crise
O fenômeno observado em 2024 e 2025 faz parte de uma crise global contínua de branqueamento massivo dos corais, afetando mais de 80% dos recifes do planeta e atingindo espécies em pelo menos 82 países e territórios.
Um estudo realizado no ano passado indicou que as temperaturas oceânicas na Grande Barreira estavam entre as mais altas dos últimos 400 anos, configurando uma “ameaça existencial” ao recife listado como Patrimônio Mundial pela Unesco.
Segundo o ‘The Guardian’, a primeira ocorrência generalizada de branqueamento na Grande Barreira foi registrada em 1998, seguida por novos eventos em 2002, 2016, 2017, 2020, 2022 e novamente em 2024 e 2025.
Emslie alertou para a gravidade dos impactos atuais: “Esses eventos estão se aproximando cada vez mais uns dos outros. É possível que cheguemos a um ponto crítico onde a cobertura coralina não consiga se recuperar devido à frequência das perturbações”.
Medidas
Ele enfatizou a necessidade urgente de mitigar as causas raízes do problema: “Precisamos reduzir emissões e estabilizar as temperaturas”.
O relatório da Aims surge num momento crucial, uma vez que o governo federal australiano está prestes a divulgar suas metas de redução de emissões para 2035. O governo Albanese prometeu à Unesco no ano passado que estabeleceria metas cada vez mais ambiciosas para a redução das emissões alinhadas aos esforços para limitar o aumento da temperatura global a 1.5°C.
Na semana passada, a Autoridade sobre Mudanças Climáticas liberou um relatório sugerindo que manter o aquecimento “o mais próximo possível de 1.5°C” é fundamental para enfrentar as ameaças à Grande Barreira.
Richard Leck, chefe da área marinha do WWF Austrália, reforçou que o governo deve definir uma meta condizente com os objetivos climáticos: “Essa é a única ação que o governo pode tomar para dar ao recife uma chance real de sobrevivência”.