A polêmica ‘sala de crânios’ da Universidade de Edimburgo
Coleção de crânios tem origem racista e foi utilizada em estudos de pseudociência que associava a forma do crânio à inteligência e ao caráter

A Universidade de Edimburgo guarda, em uma sala reservada e fechada ao público, uma coleção impressionante e um tanto perturbadora: centenas de crânios humanos, cuidadosamente alinhados em armários de vidro com moldura de mogno.
Muitos desses crânios exibem etiquetas envelhecidas, números pintados manualmente e, em alguns casos, ainda conservam dentes de ouro ou fragmentos de tecido cutâneo. Essa é a chamada “Sala dos Crânios”, que faz parte do Museu Anatômico da universidade e simboliza uma herança científica profundamente entrelaçada com práticas racistas e coloniais.
Como destaca uma matéria do portal The Guardian, a coleção teve origens diversas: alguns restos foram doados voluntariamente, outros vieram de criminosos escoceses executados, como era comum no século 19.
Muitos, porém, foram retirados de comunidades indígenas durante expedições militares e coloniais, ou obtidos por apoiadores da frenologia, pseudociência que associava a forma do crânio à inteligência e ao caráter.
Irmãos Richards
Dois dos crânios pertencem, ao que tudo indica, a George Richards e Robert Bruce, irmãos nascidos em Barbados, filhos de George Richards, um médico formado em Edimburgo e senhor de escravos (o que possivelmente incluiria a mãe dos dois jovens).
George, de 21 anos, morreu de varíola em 1832, e Robert, de 18, faleceu de febre tifóide em 1833. Ambos eram estudantes, um de medicina, o outro de teologia.
Documentos da época indicam que foram enterrados no cemitério da igreja paroquial de South Leith. No entanto, seus crânios aparecem listados no catálogo da Sociedade Frenológica de 1858. Nos registros, os estudantes são apontados como “mulatos”.

A identificação dos irmãos se baseia em registros cruzados de matrícula e óbito estudados pelo Dr. Simon Buck, que investiga o passado colonial e racial da universidade. Segundo ele, o interesse pelos crânios de George e Robert se deu justamente por serem considerados exemplos de mistura racial — algo que intrigava e “desafiava” os frenologistas, que buscavam estabelecer parâmetros rígidos de diferenciação entre raças humanas e apontar uma hierarquia entre elas.
Racismo científico
A frenologia encontrou críticas entre os cientistas mais renomados da época. No entanto, professores da instituição, como Alexander Monro III e Robert Jameson, afirmavam que havia diferenças biológicas imutáveis entre grupos humanos. O primeiro dizia que o crânio negro era menor que o do europeu e que isso implicaria em um cérebro menor. Jameson, por sua vez, apresentava em suas palestras realizadas na década de 1810 um diagrama racial hierárquico de tamanho e inteligência do cérebro.
A atual Sala do Crânio, que é fechada ao público, foi concebida durante a construção da nova escola de medicina, no final da década de 1880, sob orientação de William Turner — um defensor da repatriação dessas coleções.
Hoje, a universidade reconhece seu papel histórico na perpetuação de teorias racistas e está engajada em um processo de revisão crítica de seu passado. O professor Tom Gillingwater, atual responsável pela coleção anatômica, afirma que mais de cem crânios já foram repatriados para suas comunidades de origem.
No entanto, ele ressalta que cada caso exige anos de diálogo, pesquisa e construção de confiança com os descendentes. No caso dos irmãos Richards, embora as evidências históricas sejam robustas, ainda não são suficientes para atender aos critérios legais de identificação e devolução.
Eu nunca sonharia em devolver os restos mortais a uma família quando não sabia quem eles definitivamente eram”, disse Gillingwater.
“Para olhar talvez para repatriação, enterros ou qualquer outra coisa, são literalmente anos de trabalho para cada caso individual”, disse o pesquisador. “E o que descobri é que cada cultura individual com a qual você lida quer que as coisas sejam feitas de maneira completamente diferente.”
A fonte destaca que muitos dos crânios, infelizmente, nunca serão identificados. “Isso é algo que me mantém acordado à noite”, disse Gillingwater. “Para alguns de nossos crânios, sei que o que quer que façamos, nunca vamos acabar com uma resposta”, finalizou.