Pintura de Salvador Dalí é comprada por 150 libras, e reavaliada em até 30.000

Adquirida em leilão por apenas 150 libras, pintura de Salvador Dalí era parte de projeto abandonado de Mil e Uma Noites do artista

Pintura e fotografia de Salvador Dalí / Crédito: Divulgação/Cheffins/Cambridge / Getty Images

Um achado inesperado no mundo da arte ocorreu quando uma obra do renomado artista Salvador Dalí, que passou despercebida por muitos, foi identificada e valorizada significativamente após sua venda em um leilão local.

O quadro, intitulado ‘Vecchio Sultano‘, não se apresentava inicialmente como uma obra-prima para os olhares menos experientes. Durante uma venda de bens de uma casa em Cambridge, realizada há dois anos, a pintura atraiu apenas dois licitantes e foi arrematada por modestos £150 (R$ 1114,00, na cotação atual).

Recentemente, a peça foi reavaliada e agora está estimada entre £20.000 e £30.000 (entre R$ 148 mil e R$ 223 mil), após especialistas confirmarem que se trata de uma ilustração de um “velho sultão”, criada por Dalí em 1966.

‘Vecchio Sultano’, uma obra de arte mista que combina aquarela e caneta marcadora, representa uma cena das famosas histórias de ‘As Mil e Uma Noites‘. Este trabalho fazia parte de um ambicioso projeto que Dalí idealizara, no qual planejava criar 500 ilustrações baseadas nas narrativas do Oriente Médio.

Gabrielle Downie, especialista em artes finas da casa de leilões Cheffins em Cambridge, comentou sobre a fascinação do artista pela cultura mourisca, afirmando que Dalí acreditava ter ascendência dessa linhagem. A comissão para as ilustrações veio dos patronos Giuseppe e Mara Albaretto, com a editora italiana Rizzoli pretendendo publicar a coleção. Contudo, o artista abandonou o projeto antes de concluir as 500 peças, deixando-as inéditas.

“Das 100 ilustrações finalizadas, metade ficou com a Rizzoli e foram danificadas ou perdidas, enquanto as outras 50 permaneceram com os Albaretto e foram herdadas pela filha deles, Christina, que também era afilhada de Dalí“, explicou Downie.

A publicação das 50 ilustrações retidas pela família Albaretto em 2014 reacendeu o interesse pelo projeto inacabado e despertou questionamentos sobre o paradeiro das obras ainda não publicadas, conforme repercute o The Guardian.

Pintura de Salvador Dalí e certificado de autenticidade da obra / Crédito: Divulgação/Cheffins/Cambridge

Descobrindo a obra

John Russell, um antiquário de Cambridge (nome fictício), foi quem adquiriu ‘Vecchio Sultano’. Sem conhecimento sobre o valor potencial da peça na época da compra, ele se deixou levar pela assinatura visível de Dalí no canto inferior direito. “O leilão não é online; você comparece, observa e tudo que vê é sua chance de descobrir um tesouro“, comentou Russell. Ele admitiu que estava incerto se realmente gostaria de pendurar a obra em sua parede.

Ao descobrir que a pintura havia sido encontrada em uma garagem londrina e ao notar etiquetas na parte traseira que indicavam sua inclusão em um leilão da Sotheby’s nos anos 1990, Russell decidiu fazer sua pesquisa. “Fiquei chocado ao perceber o que estava diante de mim”, disse ele.

Motivado pela possibilidade de adquirir um item autêntico após anos acompanhando o programa ‘Fake or Fortune’, Russell fez uma oferta impulsiva durante o leilão. Apesar do descrédito geral sobre a peça — mesmo sendo apresentada como original — houve pouca concorrência durante a disputa; apenas um outro licitante se atreveu a competir até desistir com uma oferta de £150.

Meses depois da compra, Russell localizou o catálogo do leilão da Sotheby’s através do eBay nos Estados Unidos, onde encontrou menção à pintura de 38 cm x 29 cm como sendo identificada como obra de Dalí. Em seguida, ele solicitou uma avaliação à Cheffins.

A casa de leilões consultou Nicolas Descharnes, um renomado especialista em Dalí, que autenticou a obra com base no estilo, tema e cores que correspondem às demais peças da série. “As pessoas esperam ver obras surrealistas tradicionais de Dalí. Esta não é surrealista, mas é indiscutivelmente uma obra dele”, afirmou Descharnes.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.