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Resíduos radioativos da 1ª bomba atômica se tornam terapia promissora contra câncer

Resíduos nucleares transformados em esperança: nova terapia promete revolucionar o tratamento contra o câncer

O efeito da bomba em Nagasaki
O efeito da bomba em Nagasaki - George R. Caron via Wikimedia Commons / Domínio Público

Resíduos radioativos oriundos das primeiras fases do programa de armas nucleares dos Estados Unidos estão sendo transformados em uma nova e promissora terapia para o tratamento do câncer.

Pesquisadores do Oak Ridge National Laboratory (ORNL), localizado no Tennessee, têm gerido com rigor materiais remanescentes como o Urânio-233, acumulado desde a década de 1940, quando foi utilizado no Projeto Manhattan para a fabricação das primeiras bombas atômicas.

Durante o processo de descarte, cientistas identificaram a possibilidade de extrair um subproduto extremamente raro da degradação do urânio: o Tório-229. Esse isótopo radioativo é empregado na terapia alfa direcionada, uma técnica inovadora que atua diretamente nas células cancerígenas em nível de DNA.

A desintegração do Tório-229 gera Actínio-225 (Ac-225), um isótopo capaz de eliminar tumores sem afetar os tecidos saudáveis adjacentes. Pesquisadores acreditam que a terapia alfa direcionada pode ser eficaz no tratamento de diversas formas de câncer, incluindo linfoma, câncer de próstata e câncer de mama.

A gerente de projeto da iniciativa de limpeza do urânio no Oak Ridge, Sarah Schaefer, afirmou: “Isso não é mais algo que acontecerá no futuro. O momento é agora”, repercute o Daily Mail.

O tratamento

A terapia alfa direcionada é uma ferramenta precisa no combate ao câncer, operando como um pequeno míssil guiado que visa células cancerígenas no organismo do paciente.

Médicos utilizam o Tório-229 para produzir Ac-225, que é ligado a anticorpos especializados que funcionam como dispositivos de localização, buscando e aderindo às células cancerígenas no próstata, mama ou gânglios linfáticos.

O Ac-225 emite partículas radioativas (chamadas partículas alfa) que danificam o DNA da célula cancerosa e eliminam o tumor.

Esse tipo de tratamento focado não prejudica as células saudáveis circunvizinhas, resultando em efeitos colaterais reduzidos em comparação com tratamentos mais amplos como a quimioterapia.

Atualmente, o maior desafio reside na escassez do Tório-229 em todo o mundo, com apenas 45 gramas disponíveis.

É crucial extrair Th-229 porque esse isótopo provém exclusivamente do U-233,” declarou Schaefer. “A maior parte do suprimento mundial de U-233 está armazenado no ORNL. Assim que esse material for destinado, não haverá mais disponibilidade de Th-229.”

Ainda que os cientistas tenham conseguido extrair menos de 60 gramas de Tório-229 dos resíduos nucleares norte-americanos, essa quantidade é suficiente para tratar centenas de pacientes com câncer anualmente.

Uma dose terapêutica única de Ac-225 varia normalmente entre quatro a 50 MBq (megabecqueréis), dependendo do tipo de câncer e do protocolo de tratamento definido para cada paciente.

Os megabecqueréis são unidades que medem a radioatividade e correspondem a quatro a 50 “impulsos” de energia, onde cada impulso é suficiente para atingir as células cancerosas em uma única sessão.

A quantidade necessária de Ac-225 provém de uma fração ainda menor de Tório-229, equivalente a menos que um grão de sal.

Dessa forma, apesar da extração mínima do tório ser microscópica em relação à totalidade dos resíduos nucleares do país, ela desempenha um papel significativo nas experiências médicas.

Contudo, um novo desafio aguarda os cientistas quando o projeto de descarte do urânio em Oak Ridge for concluído.

De acordo com uma divulgação do Departamento de Energia dos EUA, Oak Ridge estabeleceu como meta eliminar todo o seu estoque de Urânio-233 até 2028. Isso implica que os cientistas precisarão desenvolver métodos alternativos para fabricar Tório-229 sem depender dos materiais utilizados na fabricação de armas nucleares.

Esses métodos poderão envolver a criação do Tório-229 a partir de alternativas como Radônio-226 em reatores nucleares. A técnica consistiria em bombardear o Radônio-226 com partículas conhecidas como nêutrons para alterar sua estrutura atômica e convertê-lo em tório.

Isso pode ser comparado a seguir uma receita culinária que requer múltiplas etapas ao invés de esperar pela degradação natural do Tório-229 proveniente do urânio.

Cientistas também podem utilizar aceleradores de partículas denominados ciclotrons para bombardear Radônio-226 ou Tório-232 com prótons visando produzir Tório-229. Essa abordagem seria similar ao uso de ferramentas avançadas para extrair exatamente o material radioativo necessário.

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!