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Séculos de trabalho invisível: a história das mulheres na economia

Participação feminina na economia ainda depende de transformações sociais, políticas e culturais profundas

Imagem ilustrativa - Getty Images

A presença das mulheres na economia é mais antiga do que o reconhecimento formal de seu trabalho. Por séculos, elas trabalharam em atividades invisibilizadas, não remuneradas ou desvalorizadas. Entender essa trajetória exige voltar na história e observar como papéis sociais foram sendo construídos no tempo.

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As origens invisíveis do trabalho feminino

Nas sociedades rurais antigas, a divisão de tarefas já era distinta. Enquanto homens se dedicavam à caça e a atividades externas, mulheres realizavam a coleta, cultivo de alimentos e organização da vida cotidiana.

Essas atividades eram essenciais para a sobrevivência dos grupos, mas, passaram a ser associadas ao espaço doméstico e ao cuidado, o que moldaria por séculos a forma como o trabalho feminino seria percebido.

Esse padrão também marcou a formação econômica do Brasil. No período colonial e imperial, o trabalho feminino variava conforme a posição social. Mulheres livres pobres atuavam nas lavouras, pequenas produções familiares, artesanato e comércio local. Já mulheres escravizadas desempenhavam trabalho agrícola, doméstico e urbano.

Muitas eram “escravas de ganho”, que circulavam pelas cidades vendendo alimentos, lavando roupas ou prestando serviços e entregando parte do rendimento aos seus senhores. Em contraste, mulheres da elite agrária ou da corte eram destinadas sobretudo à administração da casa e à vida privada.

Mudanças e permanências na participação feminina

Mesmo após o fim da escravidão e com a industrialização, a presença feminina no mercado formal continuou restrita. No início do século XX consolidou-se entre as elites urbanas a ideia de que a mulher deveria se restringir ao espaço privado da família.

Na prática, essa norma atingia as camadas ricas. Mulheres pobres continuaram trabalhando em serviços domésticos, pequeno comércio, costura, lavagem de roupas e nas primeiras fábricas urbanas, muitas vezes em condições precárias e com baixa remuneração, movidas pela necessidade de sustento próprio e familiar.

Durante e após a Segunda Guerra Mundial, com milhões de homens mobilizados, mulheres passaram a ocupar postos antes masculinos.

Embora tenham sido pressionadas a retornar para casa depois da guerra, essa experiência alterou a percepção social sobre sua participação no trabalho. No Brasil, o impacto foi mais indireto, mas relevante pois ampliaram a presença feminina em fábricas, comércio e serviços, fortalecendo ao longo das décadas seguintes, as reivindicações por igualdade.

Avanços legais e reconhecimento de direitos

Na legislação, essas mudanças também ocorreram de forma gradual. A Consolidação das Leis do Trabalho passou a estabelecer regras relacionadas ao trabalho feminino, incluindo proteção à maternidade. Décadas depois, novos avanços ampliaram direitos e consolidaram a presença das mulheres no mercado de trabalho.

O marco mais importante ocorreu com a Constituição de 1988. Seu texto estabeleceu explicitamente a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres, proibiu diferenças salariais por motivo de sexo e reforçou direitos relacionados à maternidade e à proteção do trabalho feminino.

Desigualdades persistentes e caminhos para a equidade

Apesar dessas conquistas, desigualdades ainda persistem. Mulheres continuam mais responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidado, menor presença em posições de liderança e diferenças salariais em diversas áreas da economia.

Esses desafios são resultado de séculos de construção sobre o “papel” de homens e mulheres. Essa também é a foto da família brasileira: 49,1% dos domicílios têm mulheres como responsáveis pelo lar, segundo o Censo de 2022.

Olhar para a trajetória histórica da participação feminina na economia ajuda a entender que a desigualdade no mercado de trabalho não é fruto apenas de decisões individuais, mas de estruturas sociais construídas por séculos.

Reconhecer essa história é um passo importante para avançar em direção a um mercado de trabalho mais justo, com ações que contribuam para mudanças estruturais.

O papel do governo e das empresas na promoção da igualdade

O governo tem papel central nesse processo ao criar leis para reduzir essas distorções. No Brasil, a Lei da Igualdade Salarial passou a exigir que grandes empresas publiquem o Relatório de Transparência Salarial, dando visibilidade às disparidades e estimulando sua correção.

Também avançaram iniciativas voltadas à ampliação da corresponsabilidade parental, buscando reduzir a diferença entre licenças de maternidade e paternidade. Pode-se citar também leis de proteção às mulheres, como a Lei Maria da Penha, e outras iniciativas voltadas à ampliação da corresponsabilidade no cuidado.

Por parte das empresas, a mudança não pode se limitar ao cumprimento da legislação. Reduzir desigualdades exige transformações culturais e estruturais: revisar práticas de recrutamento e promoção para evitar vieses, garantir transparência salarial, ampliar políticas de parentalidade e investir nas lideranças femininas.

As áreas de RH podem estruturar essas práticas, mas sua implementação depende da liderança das organizações — inclusive da masculina, que precisa ser preparada para reconhecer vieses e atuar na promoção da equidade. Isso envolve acompanhar indicadores de diversidade, estabelecer metas claras e responsabilizar essa mesma liderança pelos avanços.

Sem mudanças nessas estruturas, por vezes invisíveis, mas profundamente enraizadas, o avanço na igualdade de gênero tende a ser mais lento do que a própria transformação social que já está em curso.


Sobre a autora: Renata Seldin é mentora de carreiras e doutora em Gestão da Inovação, com mais de 24 anos de experiência como executiva em consultoria de gestão.

Autora de “As perdas no caminho: em busca de uma família”, ministra palestra sobre temas relacionados à igualdade de gênero no ambiente de trabalho e ao planejamento familiar.