O que permitiu, segundo pesquisadores, que alguns dinossauros se tornassem múmias
As chamadas "múmias de dinossauro", isto é, fósseis extraordinários que preservam tecidos moles, têm permitido a descoberta de novas informações sobre antigas espécies

A maior parte do conhecimento hoje existente sobre dinossauros foi possível graças à análise de estruturas ósseas, que possibilitaram estimar tamanho, velocidade de crescimento e até mesmo aspectos reprodutivos de diferentes espécies. No entanto, os ossos contam apenas parte da história. Nos últimos anos, porém, a descoberta de fósseis extraordinários que preservam tecidos moles têm ampliado esse panorama. São as chamadas “múmias de dinossauro“, que, apesar do nome, não resultam de processos intencionais como o embalsamamento humano.
Como explica uma matéria do portal National Geographic, o termo se aplica a fósseis em que a pele e outras estruturas externas deixaram impressões finas nas rochas que envolvem o esqueleto. Essas marcas funcionam como moldes naturais, permitindo aos paleontólogos reconstruir aspectos da aparência dos dinossauros. À medida que mais exemplares são encontrados e estudados, cresce a percepção de que esse tipo de preservação excepcional pode ser mais comum do que se imaginava.
Múmias de bico-de-pato
Um dos casos mais emblemáticos envolve o Edmontosaurus annectens, um dinossauro bico-de-pato que viveu entre 68 e 66 milhões de anos atrás nas regiões que hoje correspondem a Montana e Saskatchewan. Bastante abundante no registro fóssil, esse animal tornou-se uma referência para o estudo das chamadas múmias de dinossauros. Descobertas recentes, incluindo dois espécimes encontrados em Wyoming, apelidados de “Ed Junior” e “Ed Senior”, revelaram detalhes surpreendentes de sua anatomia externa. Entre eles, estavam estruturas semelhantes a cascos nas patas dianteiras, além de uma fileira de escamas pontiagudas ao longo das costas, que, curiosamente, lembram a aparência de um dragão.
Essas descobertas complementam evidências anteriores de que o Edmontosaurus possuía uma crista carnuda na cabeça, bem como dedos dianteiros envoltos em uma espécie de luva e um bico áspero, semelhante a uma pá. Tais características além enriquecerem a reconstrução visual do animal oferecem informações sobre seu comportamento e modo de vida. A presença de estruturas resistentes nas patas, por exemplo, sugere adaptações específicas para locomoção, indicando que o dinossauro podia alternar entre andar sobre quatro patas e correr sobre duas.
Hipótese reavaliada
Durante muito tempo, os cientistas acreditaram que a formação dessas múmias dependia de um soterramento rápido após a morte do animal, o que impediria a decomposição completa dos tecidos moles. No entanto, estudos mais recentes vêm desafiando essa ideia. Evidências indicam que, em alguns casos, a exposição do corpo por semanas ou até meses pode ter sido um fator crucial para a preservação.
Um exemplo marcante é o fóssil conhecido como “Dakota”, um Edmontosaurus cuja pele foi excepcionalmente preservada. Pesquisas sugerem que o corpo desse dinossauro permaneceu exposto por tempo suficiente para ser parcialmente consumido por necrófagos. Esse processo teria perfurado a carcaça, permitindo a liberação de gases e fluidos internos. Com isso, a pele — que é mais resistente — e o casco secaram e se mantivessem por tempo suficiente até ser finalmente cobertos por sedimentos.
Presença de argila
Outro mecanismo possível foi identificado nas múmias mais recentes de Wyoming. Nesse caso, uma fina camada de argila, com cerca de 2,5 milímetros de espessura, aderiu ao corpo do dinossauro em decomposição. Essa argila moldou-se às estruturas externas, registrando com precisão a textura da pele e outras características. Posteriormente, o conjunto foi envolvido por camadas mais duras de arenito, de modo a preservar o molde ao longo de milhões de anos.
Embora o Edmontosaurus seja um dos exemplos mais conhecidos, ele não é o único dinossauro a apresentar esse tipo de preservação. Impressões de pele e tecidos moles também foram encontradas em outros hadrossauros, como o Saurolophus e o Gryposaurus, além de tiranossauros, dinossauros com chifres e até saurópodes. Ainda assim, os hadrossauros se destacam pela frequência com que apresentam esse tipo de registro.
Uma das razões para isso, destaca Clint Boyd, paleontólogo da Universidade Estadual de Dakota do Norte, pode ser simplesmente estatística. Como esses dinossauros eram extremamente numerosos em seus ecossistemas, as chances de que suas carcaças passassem pelas condições específicas necessárias para a formação de múmias eram aumentadas. Além disso, o grande porte desses animais favorecia a preservação de partes do corpo ainda articuladas, mantendo ossos e pele associados.
É muito provável que você encontre pelo menos um pedaço de uma impressão da pele sempre que encontrar ossos articulados de hadrossauros, sem necessidade de esqueletos completos”, diz François Therrien, pesquisador do Museu Real Tyrrell de Paleontologia, do Canadá.
Importância para a ciência
As múmias de dinossauros têm um valor científico inestimável, já que elas permitem não apenas reconstruir a aparência desses animais, mas também investigar aspectos de sua biologia e comportamento. Padrões de escamas, por exemplo, podem ajudar na distinção de espécies semelhantes. Foi o caso de duas espécies de Saurolophus, cujas diferenças só se tornaram evidentes após a análise detalhada de suas impressões cutâneas.
Além disso, essas estruturas podem revelar informações sobre coloração e camuflagem. Estudos comparando fósseis com animais modernos indicam que alguns dinossauros apresentavam contra-sombreamento, isto é, uma coloração mais escura na parte superior do corpo e mais clara na inferior, que os ajudava a se camuflar no ambiente. Esse tipo de adaptação sugere interações complexas com predadores e o meio em que viviam.
Mas a fonte destaca que, apesar dos avanços, muitos aspectos relativos à formação dessas múmias ainda são desconhecidos. Afinal, diferentemente dos ossos, que possuem uma estrutura mineral que facilita a fossilização, a pele e outros tecidos moles exigem condições muito específicas para serem preservados. Logo, compreender esses processos se torna um dos grandes desafios atuais da paleontologia.