Matérias / Segunda Guerra Mundial

O único navio militar brasileiro afundado por inimigos na 2ª Guerra

Pesquisa de Vagner Rigola resgata relatos inéditos, revela falhas e reposiciona o torpedeamento do navio brasileiro Vital de Oliveira

Navio Vital de Oliveira capa
O navio-auxiliar Vital de Oliveira - Acervo da DPHDM/Vagner Rigola

Na noite de 19 de julho de 1944, o Atlântico Sul se tornou palco de uma das páginas mais dramáticas da história naval brasileira. O navio-auxiliar Vital de Oliveira, pertencente à Marinha do Brasil, foi atingido por um torpedo disparado pelo submarino alemão U-861 e afundou rapidamente, levando consigo cem vidas.

O episódio, frequentemente lembrado apenas como uma tragédia isolada da Segunda Guerra Mundial, ganha agora novas interpretações em um estudo aprofundado conduzido pelo doutorando em História Marítima pela Universidade de Lisboa e encarregado da Divisão de Pesquisas Históricas da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM), Vagner Rigola, que procurou a equipe de Aventuras na História para falar sobre seu mais recente trabalho, ainda a ser publicado.

O ataque ao navio Vital de Oliveira

Segundo Rigola, o afundamento do Vital de Oliveira não pode ser compreendido apenas como um ataque pontual contra uma embarcação brasileira. Para ele, o episódio fazia parte de uma estratégia muito mais ampla do Terceiro Reich para expandir a guerra submarina ao Atlântico Sul em um momento em que a Alemanha nazista já enfrentava forte pressão militar no hemisfério norte.

“O ataque ao Navio-Auxiliar Vital de Oliveira deve ser entendido como parte de uma estratégia geopolítica mais ampla do Eixo, que passou a incluir o Atlântico Sul, sobretudo após o alinhamento do Brasil com os Aliados”, explica o pesquisador. “O torpedeamento não foi episódico nem improvisado; inseriu-se na tentativa alemã de projetar a guerra para fora do Atlântico Norte.”

O responsável pelo ataque foi o U-861, submarino de longo alcance da classe Type IXD2 comandado por Jürgen Oesten. A embarcação fazia parte do Monsun Gruppe, força-tarefa criada pelo almirante Karl Dönitz para atuar entre o Oceano Índico e o Extremo Oriente, tentando romper bloqueios aliados e transportar materiais estratégicos essenciais para a indústria de guerra alemã.

U-Boats nazistas usados na Segunda Guerra Mundial – Domínio Público

De acordo com Rigola, o submarino cruzava o litoral brasileiro rumo à Ásia quando encontrou o Vital de Oliveira. Na lógica brutal da guerra oceânica, qualquer navio associado ao esforço militar aliado era considerado alvo legítimo. “O navio brasileiro foi atingido dentro da lógica da guerra oceânica, na qual qualquer unidade ligada ao abastecimento, à escolta ou ao transporte militar poderia ser considerada alvo legítimo para os ataques do Eixo”, afirma.

A incorporação do navio à Marinha

A pesquisa também reconstrói a trajetória singular do próprio Vital de Oliveira. Antes de integrar a Marinha, o navio era conhecido como Itaúba e operava como embarcação civil de transporte de passageiros e cargas da Companhia Nacional de Navegação Costeira. Construído em 1910 na Escócia, ele percorreu o litoral brasileiro por mais de duas décadas até ser incorporado à Esquadra em circunstâncias inusitadas.

Rigola relata que a incorporação ocorreu após um escândalo envolvendo o roubo de valores pertencentes ao Banco do Brasil durante uma viagem realizada pelo Itaúba em 1926. Funcionários da própria companhia participaram do crime, gerando um longo processo judicial que terminou com a condenação da empresa. Como forma de quitar a dívida, três navios foram transferidos à Marinha em 1931, entre eles o Itaúba, posteriormente rebatizado como Vital de Oliveira.

O paquete Itaúba antes de se tornar Vital de Oliveira – Acervo da DPHDM/Vagner Rigola

“O veterano paquete Itaúba despediu-se definitivamente de sua rotina civil, sendo artilhado com dois canhões de 47 mm e despojado de suas cores mercantes em favor do cinza da Esquadra”, descreve o pesquisador.

O que dizem os sobreviventes?

O estudo ganha força especialmente pelos relatos de sobreviventes coletados por Rigola. As descrições revelam momentos de heroísmo, sacrifício e desespero vividos durante os minutos finais do navio.

Um dos episódios mais marcantes envolve o grumete Jayme Leopoldo de Carvalho. Segundo o comandante Guimarães Roxo, o marinheiro já estava pronto para abandonar o navio quando lembrou que seu irmão mais novo dormia na Praça D’Armas. Ele voltou para buscá-lo, mas não houve tempo. “Por seu amor fraternal Jayme morreu juntamente com o seu irmão”, relata Rigola a partir do testemunho do comandante.

Outro relato impactante é o de um marinheiro gravemente doente, vindo do encouraçado Minas Gerais, que recusou ajuda durante o naufrágio. “O marinheiro argumentou que não seria justo salvar a si mesmo, já incapacitado para o esforço bélico, ocupando assim o lugar de um companheiro que ainda pudesse ser útil à Marinha”, conta o pesquisador.

Há ainda a história do grumete Sandoval Santos, que, mesmo com as pernas amputadas pelos danos do ataque, usou seus últimos instantes de vida para gritar “Viva o Brasil!” antes de desaparecer nas águas do Atlântico.

Para Rigola, esses testemunhos ajudam a humanizar um episódio frequentemente tratado apenas em termos militares e estratégicos. “Além de traumático, o afundamento do Vital de Oliveira se traduz em um marco singular na historiografia, pois tratou-se do único navio da Marinha de Guerra brasileira efetivamente perdido por ação hostil direta durante toda a Segunda Guerra Mundial”, destaca.

Novidades na abordagem

A pesquisa também apresenta novas informações técnicas sobre o ataque. Um dos elementos inéditos vem do próprio comandante do U-861, Jürgen Oesten, que revelou em entrevista ter utilizado inicialmente um torpedo acústico T-5 — tecnologia avançada para a época — contra o Vital de Oliveira. O disparo, porém, falhou.

“Oesten afirma que o primeiro disparo foi realizado com esse tipo de torpedo, porém ele falhou, obrigando o uso de um torpedo convencional para concluir o afundamento”, afirma Rigola. Segundo ele, o detalhe demonstra as limitações das tecnologias alemãs no final da guerra, apesar da fama de sofisticação da Kriegsmarine.

Mais do que revisitar uma tragédia, o estudo busca reposicionar o episódio dentro da história global da Segunda Guerra. “O ataque deixa de ser apenas um naufrágio dramático e passa a ser compreendido como evidência de uma nova fase da guerra no mar”, resume Rigola. “Em vez de repetir o ataque como uma cena fechada, o texto o reinsere em uma trama maior, onde logística, tecnologia e estratégia se entrelaçam.”

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.