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13 dias, 13 noites: A arriscada missão francesa no Afeganistão

Baseado em fatos reais, “13 Dias, 13 Noites” transforma a evacuação de civis em Cabul em drama sobre memória, trauma e responsabilidade moral

13 dias 13 noites capa
Cena de 13 dias 13 noites - Divulgação

O cinema frequentemente recorre a grandes eventos históricos para construir narrativas de impacto, mas raramente consegue traduzir com tanta proximidade emocional o que acontece longe das câmeras. Esse é o caso de 13 Dias, 13 Noites, novo filme dirigido por Martin Bourboulon, que revisita uma das operações militares mais arriscadas já conduzidas pela França: a retirada de civis afegãos durante a retomada de Cabul pelo Talibã, em agosto de 2021.

A produção, que estreia nesta quinta-feira, 26, é inspirada no testemunho real do comandante Mohamed Bida, responsável por coordenar a evacuação de mais de 2.800 pessoas entre os dias 15 e 28 daquele mês. Quatro anos depois dos acontecimentos, o trauma ainda permanece vivo. “Não tenho a sensação de ter saído do Afeganistão”, afirmou o militar ao Allocine, evidenciando que a guerra não termina quando os soldados deixam o campo de batalha — ela continua na memória.

O longa surge justamente como uma tentativa de dar forma a essa memória. Diferente da cobertura jornalística da época, marcada por imagens impactantes — como civis tentando se agarrar a aviões em movimento —, o filme se propõe a olhar para além do espetáculo. A intenção, segundo os envolvidos, é reconstruir o que não foi visto: os bastidores, os dilemas e, sobretudo, as pessoas por trás dos números.

13 dias,13 noites

Essa abordagem também é destacada pelo próprio Bida, que aponta a ausência de testemunhas independentes durante a operação. Segundo ele, não havia imprensa ou organizações humanitárias no local — apenas diplomatas e militares, que raramente compartilham seus relatos. Nesse sentido, o filme assume uma função quase documental ao trazer à tona uma história que permaneceu, em grande parte, invisível ao público.

Interpretado por Roschdy Zem, o comandante ganha uma dimensão dramática que evita o heroísmo simplista. O ator opta por uma construção mais contida, focada nas contradições do personagem. Em vez de um líder inabalável, vemos alguém atravessado por dúvidas, medo e responsabilidade — um retrato mais fiel do que significa liderar em situações extremas.

Zem também destaca ao Allocine o peso moral envolvido no projeto. Para ele, contar essa história não é apenas uma escolha artística, mas uma espécie de compromisso ético. Ao relembrar as imagens da crise afegã, o ator ressalta que, por trás de cada cena amplamente divulgada, existiam indivíduos com trajetórias interrompidas e destinos incertos.

Cena de 13 dias, 13 noites – Divulgação

Essa preocupação em evitar o sensacionalismo orienta toda a construção do filme. Em vez de apostar em grandes cenas de ação ou em uma estética espetacularizada da guerra, Bourboulon opta por uma narrativa mais imersiva e humana. O objetivo é colocar o espectador dentro da experiência — não como observador distante, mas como alguém que compartilha a tensão e a urgência daqueles dias.

Curiosamente, o próprio Mohamed Bida manteve certa distância do processo de adaptação. Ele se encontrou apenas uma vez com Roschdy Zem, durante um almoço, preferindo não interferir diretamente na criação do personagem. A decisão revela uma confiança na linguagem cinematográfica como meio de reinterpretar a realidade — não para reproduzi-la fielmente, mas para traduzi-la em outra dimensão.

Essa escolha dialoga com uma ideia central do filme: a de que representar alguém real não significa imitá-lo, mas compreender sua essência. O próprio ator reforça essa perspectiva ao afirmar que buscou construir o personagem a partir de elementos do livro original, sem cair na armadilha da cópia literal.

Outro ponto relevante da narrativa é a desconstrução da figura do herói. Embora o comandante seja retratado como alguém essencial para o sucesso da operação, o filme faz questão de mostrar que ele não se enxerga dessa forma. Ao contrário, sua postura é marcada por discrição e por um senso de dever que ultrapassa qualquer reconhecimento público.

Essa ambiguidade contribui para um retrato mais complexo da guerra — não como palco de feitos gloriosos, mas como um espaço de decisões difíceis, onde o certo e o errado nem sempre são claros. Ao enfatizar os momentos de fragilidade e incerteza, 13 Dias, 13 Noites se distancia das narrativas tradicionais do gênero e se aproxima de um drama humano mais universal.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.