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Tesouro anglo-saxão que pode ter feito parte de ritual é descoberto na Inglaterra

Tesouro encontrado por detectoristas na Inglaterra pode ter sido enterrado como parte de um ritual há cerca de 1.400 anos

Quatro pingentes de ouro e um broche de ouro e granada datados do século VII foram descobertos em Lincolnshire, Inglaterra - Crédito: Divulgação/O Esquema de Antiguidades Portáteis

Uma impressionante coleção de pêndulos de ouro e granada da era anglo-saxônica foi recentemente descoberta por detectoristas na Inglaterra, levantando questões sobre seu significado e origem. Acredita-se que esses itens possam ter sido enterrados como parte de um ritual há cerca de 1.400 anos.

Em primavera de 2023, dois entusiastas da detecção de metais encontraram um conjunto composto por quatro pêndulos de ouro e uma parte de um broche de ouro em uma encosta na vila de Donington on Bain, localizada a aproximadamente 200 quilômetros ao norte de Londres. Os achados foram reportados sob o Esquema de Antiguidades Portáteis do Reino Unido, levando a arqueóloga Lisa Brundle, oficial de ligação para achados no condado de Lincolnshire, a analisar as joias extraordinárias.

No dia 24 de novembro, Brundle publicou suas descobertas na Oxford Journal of Archaeology, onde destacou que “os pêndulos, como um conjunto coeso de colar, são incomuns”. Embora acessórios feitos com ouro e granada fossem comuns entre mulheres de alta posição social no século 7 na Inglaterra, geralmente esses itens são encontrados em túmulos, e não agrupados em uma colina.

Os pêndulos apresentavam sinais visíveis de desgaste e modificações, sugerindo que poderiam ser antiquidades — possivelmente com mais de 60 anos — no momento em que foram enterrados. Nenhum outro artefato ou restos humanos acompanhavam os pêndulos encontrados em Donington, o que leva a crer que alguém pode ter coletado essas peças propositadamente antes de enterrá-las como um ato ritual ou para sua proteção.

Detalhes

Dentre os itens descobertos, o mais pesado é um pêndulo em forma de D, pesando cerca de 6,7 gramas. Um grande cristal de granada está incrustado em uma célula dourada com formato de concha na parte inferior do pêndulo. Brundle observou que “o formato de concha possui importância simbólica”, frequentemente associado à fertilidade e possivelmente com conotações cristãs.

Os outros quatro acessórios eram circulares, decorados com motivos estrelados e contas. Destes, três eram pêndulos e um representava a parte domada de um broche que havia sido retirada para reutilização. A reutilização do domo central do broche é particularmente significativa, segundo Brundle, visto que apenas uma dúzia desse tipo foi documentada até agora.

A pesquisadora também ressalta que é improvável que o grupo de joias tenha pertencido a um sepultamento feminino anglo-saxão típico, pois nenhum tipo de contas ou espaçadores foi encontrado para indicar que estavam todos juntos como um colar. Para entender melhor essa descoberta enigmática, Brundle explorou explicações alternativas sobre a presença dos cinco itens.

Uma possibilidade levantada por ela é que o conjunto pode ter origem em um tesouro de ourives. No século 7, os suprimentos de granadas estavam se esgotando e um ourives itinerante poderia ter coletado joias antigas para modificá-las em novos acessórios. Contudo, como essas joias foram adquiridas permanece um tema debatido. Sabe-se que ladrões costumavam atacar sepultamentos femininos nobres para retirar suas preciosidades.

Morte ritual

A retirada dos pêndulos da circulação também pode ser interpretada como uma forma de “morte ritual”, transformando poderosos símbolos antigos da elite em novos itens desvinculados daqueles indivíduos originais. Outra possibilidade é que uma ou mais mulheres tenham simplesmente reunido suas próprias joias para escondê-las.

Brundle propõe ainda que o conjunto represente pertences valiosos de grupos sociais ou familiares que foram deliberadamente ocultados durante períodos instáveis ou de transição. No final do século 6 e no século 7, a adoção do cristianismo alterou o contexto social e político da Inglaterra, dividida entre diversos reinos. Lincolnshire estava subdividida em três regiões e o tesouro foi encontrado em Lindsey, uma região independente que passou sob o domínio dos reinos da Nortúmbria e Mercia em diferentes momentos.

Trabalhos arqueológicos adicionais na área de Donington podem fornecer esclarecimentos sobre a natureza do local e sua possível significância histórica, ajudando a elucidar mais sobre as mudanças sociais e políticas na Inglaterra do século 7.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.