Retomada dos testes nucleares reabre feridas em sobreviventes
A decisão reacende temores e memórias dolorosas de vítimas da era nuclear, que ainda sofrem as consequências das explosões

O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na quarta-feira, 29, sobre a retomada dos testes nucleares, trouxe de volta lembranças amargas de um capítulo sombrio da história americana. Para milhões de pessoas, como Mary Dickson, de Utah, a notícia reabre feridas que nunca cicatrizaram desde os anos 1950 e 60 — quando os EUA explodiam armas nucleares em pleno território nacional.
Enquanto crescia em Salt Lake City, Dickson fazia parte de uma geração que aprendia a “abaixar e se proteger” nas escolas, acreditando que essa manobra poderia salvá-los em caso de ataque atômico. O que ela e muitos outros não sabiam era que, no estado vizinho de Nevada, testes nucleares atmosféricos liberavam nuvens de radiação que seguiam na direção do vento — justamente onde ela vivia.
Décadas depois, as consequências se tornaram evidentes: Dickson teve câncer de tireoide, sua irmã morreu de lúpus e outros membros da família enfrentam diferentes tipos de câncer. Em seu antigo bairro, a idosa contou 54 casos de doenças graves em apenas cinco quarteirões.
“É devastador. O dano psicológico não vai embora. A Guerra Fria para nós nunca terminou”, disse Dickson à CNN.
Legado da radiação
Entre 1945 e 1996, mais de 2.000 testes nucleares foram realizados por potências como EUA, União Soviética, Reino Unido, França e China. Milhares de pessoas nas áreas próximas — conhecidas como downwinders — foram expostas à radiação sem sequer compreender os riscos.
Os efeitos atravessaram gerações. Estudos do Instituto Nacional do Câncer dos EUA estimam que os testes em Nevada possam ter causado até 212 mil casos de câncer de tireoide. Pesquisas semelhantes em regiões como o Cazaquistão e as Ilhas Marshall revelam taxas elevadas de mortalidade, doenças congênitas e contaminação ambiental persistente.
Em alguns locais, como as Ilhas Marshall, a radiação ainda é detectada em alimentos e solos, quase 70 anos após os testes. Partes do arquipélago continuam inabitáveis, e o chamado “Domo Runit” — uma cratera coberta de concreto que abriga resíduos radioativos — ainda desperta preocupação internacional.
Nos Estados Unidos, mais de 27 mil downwinders já receberam cerca de US$ 1,3 bilhão em compensações pela Lei de Exposição à Radiação, criada em 1990. No entanto, ativistas afirmam que o processo é burocrático e que os pagamentos não refletem a magnitude dos danos.
Segundo a CNN, uma situação semelhante ocorre em outros países. A França reconheceu apenas em 2010 a ligação entre seus testes e as doenças em argelinos e polinésios, e o Reino Unido ainda enfrenta pressão de veteranos e suas famílias por indenizações específicas.
Herança nuclear
O uso de armas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, há 80 anos, marcou o início da era nuclear e uma corrida armamentista que deixou cicatrizes profundas na humanidade e no meio ambiente. Mesmo após a assinatura de tratados que praticamente encerraram os testes, o trauma coletivo permanece vivo.
“Não é um problema do passado”, alerta Togzhan Kassenova, especialista em política nuclear. “Muitas pessoas ainda estão pagando o preço”.
Para sobreviventes como Mary Dickson, o anúncio de Trump não é apenas uma decisão política — é uma lembrança dolorosa de que o perigo invisível da radiação e o sofrimento que ela causou continuam ecoando através das gerações.