Ratos-toupeira-pelados podem ter funções específicas designadas em colônias
Ratos-roupeira-pelados podem ter funções específicas em colônias, como limpar banheiro ou transportar dejetos, revelando complexidade social; entenda!

Pesquisadores descobriram que os ratos-toupeira-pelados podem desempenhar funções específicas dentro de suas colônias, incluindo papéis de “limpadores de banheiro” e “coletores de lixo”. Os resultados deste estudo, publicados na quarta-feira, 8 de outubro, na revista Science Advances, sugerem que a dinâmica social dessas criaturas é ainda mais intrincada do que os cientistas haviam imaginado.
De acordo com Teruhiro Okuyama, neurocientista comportamental da Universidade de Tóquio, as descobertas destacam a diversidade comportamental entre os indivíduos não reprodutores e as distintas funções dos reprodutores. “Nossas descobertas revelam os papéis distintos dos reprodutores e a notável diversidade comportamental entre os não reprodutores, ressaltando a complexidade da organização social do rato-toupeira-pelado”, afirmou Okuyama em entrevista ao Live Science.
Os ratos-toupeira-pelados (Heterocephalus glaber) são roedores pequenos e quase sem pelos que habitam colônias subterrâneas que variam entre 20 a várias centenas de indivíduos. Eles são uma das duas únicas espécies de mamíferos conhecidas por serem eussociais, ou seja, apresentam uma organização social avançada semelhante à das abelhas ou vespas. Em sociedades eussociais, uma rainha é responsável pela reprodução, enquanto os demais membros da colônia – que pode se estender por vários quilômetros de túneis – são trabalhadores estéreis.
Esses trabalhadores realizam uma variedade de tarefas, incluindo a função de soldados, escavadores, forrageadores e cuidadores. Entretanto, não estava claro se esses indivíduos alternavam entre funções ou se mantinham papéis fixos. Para esclarecer essa questão, Okuyama e sua equipe criaram um buraco artificial em laboratório, composto por nove câmaras dispostas em uma grade 3×3 e conectadas por tubos.
Durante um período de 30 dias, o grupo estudou cinco colônias de aproximadamente 20 ratos-toupeira-pelados cada, utilizando microchips para monitorar os movimentos dos animais e suas interações. As câmaras foram designadas para usos específicos, como áreas de ninho, lixo e um banheiro comunitário.
Os pesquisadores observaram que os animais reprodutores – a rainha e alguns machos – permaneciam juntos com frequência, enquanto os trabalhadores podiam ser classificados em seis grupos distintos com base em seus movimentos. “Elas desempenhavam funções diferentes se não estivessem se reproduzindo”, explicou Okuyama.
Um dos grupos mostrou-se bastante ativo e passava a maior parte do tempo na câmara destinada ao lixo, sugerindo que poderiam ser especialistas em transporte. Outro grupo ocupava predominantemente a câmara do banheiro, levando os pesquisadores a especular que esses indivíduos poderiam atuar como limpadores. Um terceiro grupo era menos ativo e geralmente permanecia na câmara do ninho; muitos deles eram jovens ou indivíduos mais velhos que possivelmente já haviam ultrapassado seu pico produtivo.
Acho que o trabalho está mudando gradualmente dependendo da idade”, diz Okuyama.

Outras observações
Esse estudo lança luz sobre a potencial existência de papéis distintos entre os ratos-toupeira-pelados além das funções reprodutivas ou meramente operacionais, evidenciando quão complexa pode ser sua organização social. Chris Faulkes, ecólogo evolutivo da Queen Mary University of London e não envolvido na pesquisa, elogiou o trabalho por tentar quantificar essas complexidades comportamentais.
“É um estudo realmente interessante”, disse Faulkes ao Live Science. “Qualquer pessoa que tenha passado algum tempo observando ratos-toupeira-pelados concordaria que há muitas coisas individuais acontecendo, e certos animais passam muito tempo no banheiro, varrendo ou cavando. É uma boa tentativa de quantificar ainda mais essas complexidades”.
No entanto, Markus Zöttl, ecólogo comportamental da Universidade Linnaeus na Suécia e também não participante do estudo, alertou sobre a dificuldade em tirar conclusões amplas a partir das observações feitas em um ambiente laboratorial relativamente simples.
Segundo ele, o ecossistema natural desses animais pode apresentar variações significativas nas interações sociais devido à extensão dos túneis e à necessidade de procurar alimentos. “Este artigo mostra que há variação no comportamento entre os ajudantes. Alguns ajudantes são mais ativos, outros descansam mais. Mas é isso que se espera de qualquer animal social. Alguns seriam mais proativos; outros, mais socialmente agressivos; outros, mais tímidos. Algumas pessoas podem chamar isso de personalidade animal, e outras, de sistema de castas”, disse Zöttl.
Além disso, Zöttl também destaca que não se deve tomar conclusões precipitadas a partir do estudo, visto que o que acontece na natureza pode ser bastante diferente do que ocorre em um laboratório controlado, com túneis curtos. “Se pensarmos na ecologia dessas espécies, uma toca pode se estender por uma área equivalente à de um campo de futebol”, explica.
Faulkes acrescentou que o comportamento social dos ratos-toupeira-pelados é influenciado pelas interações durante seus deslocamentos pelos longos túneis naturais. Embora existam ressalvas sobre as implicações das descobertas laboratoriais no contexto selvagem, ele considera que o estudo revela uma nova dimensão da complexidade comportamental entre esses animais.
“Há essa complexidade comportamental oculta, e você tem grupos ou indivíduos que fazem coisas muito diferentes e interagem de maneiras diferentes dentro da colônia“, comenta Faulkes, por fim.