Rara lápide de ex-escravizado livre é descoberta em Boston, nos EUA
Lápide descoberta em Boston pode ser uma das mais antigas de uma pessoa negra livre nos EUA, e revela história de ex-escravizado que conquistou a liberdade e morreu em 1729

A descoberta da lápide de um homem negro livre que viveu na América colonial pode representar um dos mais antigos registros funerários conhecidos desse grupo no continente. Identificada durante um projeto de restauração no Cemitério Granary, em Boston, a peça pertence a Boston, anteriormente chamado Sebastian enquanto era escravizado, que morreu em 1729 após viver cerca de três décadas em liberdade.
Segundo especialistas envolvidos no trabalho de conservação, a lápide foi localizada e restaurada por uma equipe da Iniciativa de Cemitérios Históricos do Departamento de Parques e Recreação de Boston. Para a prefeita da cidade, Michelle Wu, a relevância da descoberta ultrapassa seu valor arqueológico.
Essa descoberta provavelmente se trata de uma das lápides mais antigas de uma pessoa negra livre na América”, afirmou durante discurso realizado em 4 de julho. “Ela sempre esteve lá. Só precisávamos ir conferir e compartilhar a história.”
A lápide preserva apenas o nome escolhido por ele após conquistar a liberdade: Boston. O monumento também apresenta um motivo comum em lápides da Nova Inglaterra entre os séculos 17 e início do 18: uma caveira estilizada ladeada por asas. Esse símbolo, recorrente na iconografia funerária da época, é associado à ideia de ressurreição espiritual.
A inscrição, distribuída em cinco linhas, registra: “HERE LIES THE / BODY OF BOSTON / AGED 70 YEARS / DECEASED FEBRUARY THE 28 / 1728.” (“Aqui jaz o / corpo de Boston / de 70 anos / falecido em 28 de fevereiro / de 1728”)
Na grafia utilizada nas colônias americanas do século 18, alguns termos apareciam abreviados. A palavra “the”, por exemplo, era representada por uma letra derivada do antigo caractere “thorn”, que produzia o som de “th”. Além disso, expressões como “deceased” e os nomes dos meses também eram frequentemente reduzidos.
Outro detalhe envolve a data da morte. Antes de 1752, as colônias britânicas utilizavam o calendário juliano, no qual o ano começava oficialmente em 25 de março. Embora a lápide registre o falecimento em 28 de fevereiro de 1728, essa data corresponde a 28 de fevereiro de 1729 segundo o calendário gregoriano adotado atualmente.
Identificação
A identificação da lápide ocorreu durante a análise fotográfica dos monumentos do cemitério. Kelly Thomas, diretora da Iniciativa de Cemitérios Históricos, percebeu um detalhe incomum. “Eu estava revisando as fotos de lápides e notei que a lápide tinha apenas um nome”, explicou à rádio WBZ News.
A ausência de sobrenome sugeria que Boston poderia ter sido escravizado ou uma pessoa negra livre. A partir dessa pista, Thomas consultou registros históricos e concluiu que seu nome durante o período de escravidão era Sebastian, também registrado como Bastian.
Os documentos disponíveis permitiram reconstruir parte de sua trajetória. Boston e sua esposa, Jane Lake, aparecem em registros religiosos da Primeira Igreja de Boston. Em 1701, ambos batizaram uma filha, também chamada Jane, indicando participação regular na comunidade religiosa.
Apesar da vida familiar, o casal vivia separado porque ambos eram escravizados em residências diferentes, conforme apontou a historiadora Gloria Whiting em estudo publicado em 2016.
As evidências indicam que Boston conquistou a liberdade algum tempo após a morte de John Waite, homem que o mantinha escravizado e faleceu em 1702. Em 1708, seu nome já figurava em uma lista oficial de pessoas negras livres da cidade, repercute o Live Science.
Durante as décadas seguintes, Boston ganhou reconhecimento como trabalhador braçal. Sua condição de homem livre também ficou registrada de maneira incomum para pessoas negras na América colonial: quando morreu, recebeu um obituário publicado no jornal New-England Weekly Journal, algo raro tanto para pessoas escravizadas quanto libertas naquele período.
O Cemitério Granary, onde a lápide foi encontrada, é o terceiro mais antigo de Boston. Fundado em 1660, abriga mais de 5 mil sepulturas, incluindo as de figuras importantes da história dos Estados Unidos, como os signatários da Declaração de Independência Samuel Adams e John Hancock, o militar Paul Revere e Crispus Attucks, marinheiro de ascendência africana e indígena considerado a primeira vítima do Massacre de Boston.
Durante o mesmo pronunciamento em que anunciou a descoberta da lápide, Michelle Wu também informou que arqueólogos localizaram recentemente balas de mosquete e pederneiras relacionadas à Batalha de Bunker Hill. O confronto ocorreu em 17 de junho de 1775, no início da Guerra da Independência dos Estados Unidos, envolvendo tropas britânicas e forças da Nova Inglaterra.
A recuperação da lápide de Boston acrescenta um novo capítulo à história da população negra livre na América colonial. Além de preservar a memória de um homem que viveu a transição da escravidão para a liberdade, o monumento oferece evidências materiais sobre a presença e a trajetória de pessoas negras em Boston no início do século 18, ampliando o conhecimento sobre esse período da história americana.