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Arqueólogos recuperam e restauram 19 canhões da Guerra da Independência nos EUA

Encontrados durante obras no rio Savannah, canhões do século 18 ficaram submersos por mais de 200 anos; e, agora, passaram por restauração

Canhão logo após sua recuperação do rio Savannah, em 2022 / Crédito: Distrito de Savannah, Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA via Flickr sob licença CC BY 2.0

Um conjunto de 19 canhões que permaneceu submerso por mais de dois séculos no rio Savannah, nos Estados Unidos, será apresentado ao público após anos de trabalho de recuperação e restauração. Os artefatos, encontrados durante obras de dragagem realizadas entre 2021 e 2022, foram identificados como remanescentes da Guerra da Independência Americana.

A descoberta ocorreu durante um projeto de quase US$ 1 bilhão destinado a aprofundar um trecho de 64 quilômetros do rio Savannah. Enquanto removiam sedimentos do leito do rio com uma draga de concha, trabalhadores perceberam que a máquina havia trazido à superfície um canhão coberto por ferrugem. Pouco depois, outros dois exemplares foram encontrados. Ao longo dos meses seguintes, o número de peças recuperadas chegou a 19, cada uma com peso superior a 450 quilos.

Os primeiros estudos levaram arqueólogos a acreditar que os artefatos pertenciam a uma embarcação afundada durante a Guerra Civil Americana. Análises posteriores, porém, revelaram que os canhões eram significativamente mais antigos e haviam permanecido debaixo d’água desde o século 18.

A descoberta levou as autoridades a interromper temporariamente a dragagem para ampliar as buscas. Com o auxílio de mergulhadores e equipamentos de sonar, especialistas localizaram novos artefatos na área. Alguns dos canhões ainda estavam carregados, o que indicava que poderiam ter afundado a bordo de um navio que submergiu rapidamente.

Inicialmente, historiadores consideraram a possibilidade de que as armas tivessem pertencido ao HMS Rose, embarcação britânica afundada em 1779. A hipótese acabou descartada quando os pesquisadores concluíram que o navio havia afundado em outro ponto do rio e que os canhões não estavam a bordo. Em seguida, a atenção se voltou para o HMS Savannah, outro navio britânico perdido na mesma época.

“Gostaria de presumir que todos sejam do Savannah, mas não sabemos ao certo”, disse Stephen James, diretor marítimo do Commonwealth Heritage Group, que ajudou nas buscas, ao Savannah Morning News, em 2022. “Não há vestígios [do restante] da embarcação lá embaixo.”

Os acontecimentos estão ligados à ocupação britânica de Savannah, iniciada no final de 1778. No ano seguinte, tropas americanas e francesas organizaram uma ofensiva para recuperar a cidade. Diante da aproximação da frota francesa, os britânicos decidiram afundar algumas de suas próprias embarcações para bloquear o acesso pelo rio.

Segundo relatos históricos, “os britânicos conseguiam ver a frota francesa vindo da foz do rio Savannah, perto da ilha de Tybee”, disse Andrea Farmer, arqueóloga do Corpo de Engenheiros do Exército, à WJCL. “Eles queriam criar algumas obstruções subaquáticas, afundando ou destruindo esses navios.”

A batalha que se seguiu tornou-se uma das mais sangrentas da Guerra da Independência. Em meio a um nevoeiro denso, tropas americanas e francesas avançaram, mas acabaram expostas quando a névoa se dissipou. O confronto resultou em centenas de mortos e feridos.

Além dos canhões, arqueólogos recuperaram fragmentos de âncoras e partes do sino de bronze de uma embarcação. Nenhum dos objetos continha inscrições capazes de identificar definitivamente os navios de origem, repercute a Smithsonian Magazine.

Dois canhões restaurados recentemente / Crédito: Distrito de Savannah, Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA via Flickr sob licença CC BY 4.0

Restauração

Dois dos canhões foram exibidos ainda em 2021, mantendo as incrustações de ferrugem e sedimentos. Os outros 17 seguiram para um laboratório de conservação da Universidade Texas A&M, onde passaram por um longo processo de restauração. Testes realizados nas tampas de madeira das armas confirmaram que elas datam do final do século 18.

Agora restaurados, os 17 canhões integrarão a exposição “Lealistas e Liberdade”, no Museu de História de Savannah. Eles serão apresentados ao lado dos dois exemplares que permanecem cobertos por sedimentos, permitindo que o público compare o estado original e o resultado do trabalho de conservação.

“Resta tão pouco para mostrar o que aconteceu aqui”, disse Christopher Hendricks, historiador da Universidade Georgia Southern, ao Savannah Morning News. “Ainda há muito dessa história para contar.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.