Paciente com Alzheimer apresenta melhora temporária após administração de cogumelos ‘mágicos’
Mulher de 80 anos com Alzheimer apresentou melhora inesperada após receber doses elevadas de cogumelos "mágicos"

Um caso médico descrito no dia 27 de maio na revista Frontiers in Neuroscience vem chamando atenção da comunidade científica. O artigo em questão documenta que uma mulher de 80 anos com Alzheimer apresentou melhora temporária após receber doses elevadas de cogumelos “mágicos”. Segundo os pesquisadores, a intervenção ocorreu em uma clínica privada, dentro das normas legais locais e com autorização dos responsáveis pela paciente.
A paciente, uma nipo-americana cuja identidade não foi divulgada, convive com o diagnóstico há aproximadamente uma década e, nos cinco anos anteriores ao experimento, se encontrava em estágio avançado da doença, apresentando severas limitações cognitivas e físicas. Os médicos também destacaram que sua comunicação era restrita a palavras isoladas e que ela dependia de auxílio tanto para caminhar quanto para realizar atividades diárias, apresentando dificuldades até mesmo para comer.
A primeira sessão
Na primeira sessão, os cientistas deram à paciente 5 gramas de cogumelos da variedade Enigma, conhecida por sua alta concentração de psilocibina, substância psicodélica responsável pelos efeitos dos chamados “cogumelos mágicos”.
Como destaca o portal Galileu, os efeitos iniciais foram intensos e compatíveis com uma dose considerada elevada. A mulher apresentou sudorese intensa, suspeita de hipertermia e permaneceu por um longo período em um estado semelhante ao sono profundo. A surpresa veio cerca de 19 horas depois, quando, de acordo com os autores do estudo, a paciente iniciou espontaneamente uma conversa autobiográfica que se estendeu por várias horas.
Nos dias seguintes, familiares e profissionais relataram outras mudanças em seu comportamento. Entre as melhoras observadas estavam maior facilidade de comunicação, recuperação da continência urinária, melhora na mobilidade e aumento das interações sociais. Além disso, ela apresentou respostas emocionais mais expressivas.
O estudo relata ainda que a paciente passou a reconhecer familiares com maior facilidade, recuperou certa autonomia em atividades cotidianas e demonstrou capacidade de acessar memórias contextuais que pareciam perdidas. Parte desses ganhos continuava perceptível um mês após a primeira intervenção.
Uma segunda dose
Diante da persistência de alguns resultados, especialmente a recuperação da continência urinária, os responsáveis optaram por realizar uma segunda sessão. Dessa vez, a mulher recebeu 3 gramas de cogumelos contendo psilocibina.
Novamente foram observadas mudanças positivas. Os pesquisadores registraram aumento da fluência verbal, expressões faciais mais variadas, episódios espontâneos de humor, recordações autobiográficas carregadas de emoção e maior reciprocidade afetiva. Também houve relatos de maior agilidade nos movimentos.
Apesar do interesse despertado pelo caso, os próprios autores fazem questão de destacar que os resultados devem ser interpretados com cautela. O trabalho descreve apenas uma paciente e não inclui grupo de comparação, o que impede estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre a administração da psilocibina e as melhoras observadas.
Além disso, o estudo não contou com exames de neuroimagem, biomarcadores específicos da doença, avaliações cognitivas padronizadas nem monitoramento fisiológico detalhado. Dessa forma, não é possível descartar completamente a influência de flutuações naturais do quadro clínico ou de outros fatores não identificados.
Nos últimos anos, a psilocibina tem atraído crescente interesse da comunidade científica e diversos estudos investigam seu potencial terapêutico em condições como depressão resistente ao tratamento, ansiedade associada a doenças graves, transtorno de estresse pós-traumático e dependência química.
Quando administrada, a substância é transformada pelo organismo em psilocina, que atua sobre receptores cerebrais ligados à serotonina. Esse neurotransmissor desempenha papel importante na regulação do humor, da percepção, da cognição e de diversos processos emocionais.
Um relato promissor
Pesquisas anteriores sugerem que a psilocibina pode estimular a plasticidade neural, capacidade do cérebro de reorganizar suas conexões, além de influenciar grandes redes cerebrais relacionadas à memória, à atenção e ao processamento emocional. No entanto, a maior parte dos estudos envolvendo pacientes com Alzheimer tem se concentrado no tratamento de sintomas associados, como ansiedade e depressão, e não na recuperação de funções cognitivas já comprometidas pela doença.
Por isso, os pesquisadores consideram o relato promissor, mas insuficiente para qualquer conclusão definitiva. Para eles, o caso sugere que algumas capacidades funcionais podem permanecer preservadas mesmo em estágios avançados do Alzheimer e talvez possam ser temporariamente acessadas por meio de alterações em redes cerebrais induzidas pela psilocibina.
A capacidade funcional residual pode persistir na doença de Alzheimer avançada e pode tornar-se transitoriamente acessível após a modulação induzida pela psilocibina em redes cerebrais de grande escala”, escreveram os autores.
Ainda assim, especialistas ressaltam que serão necessários estudos maiores antes que a substância possa ser considerada uma alternativa terapêutica para pacientes com demência. Por enquanto, o caso representa apenas uma observação clínica incomum, mas suficientemente intrigante para motivar novas investigações científicas.