Osso encontrado revela parentesco entre dois neandertais com 10.000 anos de diferença
Pesquisadores extraíram o DNA do osso de 110.00 anos e descobriram que dois neandertais que viveram na mesma caverna siberiana com 10.000 anos de diferença eram parentes distantes

Um pequeno fragmento ósseo de 110 mil anos encontrado nas montanhas Altai, na Sibéria, ajudou a revelar que dois neandertais do mesmo sítio arqueológico, que habitaram a mesma caverna com 10.000 anos de diferença, eram parentes distantes. Até o momento, esse fragmento também forneceu o quarto genoma completo de um neandertal, ajudando a esclarecer o quão pequenos e isolados eles eram antes de seu desaparecimento.
O fragmento foi encontrado na Caverna Denisova, que esteve habitada por neandertais e denisovanos por cerca de 300 mil anos. Para entender melhor a estrutura populacional dos neandertais, os pesquisadores compararam o genoma do neandertal de 110 mil anos, chamado de D17, com os outros três genomas completos. O estudo completo foi publicado na segunda-feira, 23, no PNAS.
O genoma D17 foi comparado com o genoma de uma neandertal, chamada D5, datada de 120 mil anos atrás, que foi encontrada na mesma caverna. A comparação revelou que, mesmo que D5 não fosse uma ancestral direta de D17, as duas pertenciam a linhagens relacionadas, conectadas por um ancestral em comum. Os pesquisadores afirmam que essa descoberta revela que os neandertais tiveram uma presença duradoura na região de Altai.
O primeiro autor do estudo e professor de genética da Escola de Medicina de Yale, Diyendo Massilani, escreveu em e-mail para a Live Science que é provável que a Caverna Denisova fizesse parte de uma paisagem mais ampla, usada repetidamente por essas populações neandertais ao longo do tempo, em vez de um local ocupado por um único grupo contínuo.
Além disso, o estudo revelou que os neandertais desta região viviam em pequenos grupos, de 50 pessoas ou menos, como demonstrado por marcadores genéticos mais fortes de endogamia. Os indivíduos analisados possuíam grandes trechos de DNA idêntico, indicando que seus pais eram parentes muito próximos, podendo ser até mesmo primos de primeiro grau.
Estudos anteriores, como um de 2022, já tinham indicado que uma comunidade neandertal de Altai tinha cerca de 20 indivíduos, enquanto outro estudo forneceu evidências de um grupo isolado por cerca de 50 mil anos. A nova pesquisa complementa esses estudos anteriores que mostram que eram de fato um grupo menor e mais isolado do que a nossa espécie.
Diversos pesquisadores afirmam que o motivo do desaparecimento dos neandertais, há cerca de 34.000, seria a endogamia e o isolamento. Porém, resultados recentes apontam que eles sobreviveram por longos períodos sob condições extremas de isolamento e com populações pequenas, repercutiu a Live Science.
Parentesco
Com a análise genética foi possível descobrir que o neandertal de Altai D17 era mais aparentado ao D5 do que qualquer neandertal da Europa ou às populações posteriores da região de Altai, sugerindo que as populações neandertais do leste e do oeste da Eurásia, em um curto período de tempo, se tornaram diferentes umas das outras.
“Embora os indivíduos dos quais temos genomas tenham estado separados por apenas cerca de 50.000 anos em média, eles atingiram níveis de diferença semelhantes aos que vemos hoje entre algumas das populações humanas mais distintas, como os povos da África Central e da Papua-Nova Guiné, que se separaram há cerca de 300.000 anos”, afirmou Massilani.
O autor do estudo ainda completou dizendo que por serem pequenos e isolados, as populações tornaram-se geneticamente distintas muito mais rapidamente umas das outras. O motivo disso pode ter sido porque, em grupos pequenos e isolados, pode ter acontecido uma deriva genética, que faz com que mudanças genéticas aleatórias se tornem mais comuns com o tempo.
Ele afirma que já sabiam que os neandertais não constituíam uma população única e homogênea espalhada pela Eurásia, mas sim um mosaico de grupos moldados por processos demográficos complexos, incluindo divergência, migração, extinções locais e substituições. “O que impressiona nos nossos estudos é o quão diferenciadas essas populações podiam se tornar”.
O geneticista populacional do Laboratório Interdisciplinar de Ciências Digitais da Universidade Paris-Saclay, Léo Planche, disse que ter dois neandertais sequenciados em um local geográfico tão próximo traz uma visão nova e mais detalhada. “Começamos a ter genomas de neandertais suficientes para fazer alguma afirmação sobre sua estrutura populacional. Populações são grupos de indivíduos, então quanto mais dados, melhor”.
- Sob supervisão de Giovanna Gomes