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Moeda de prata de ‘8 reais’ do século 16 é descoberta no Chile

Moeda de prata do século 16 é descoberta na região da antiga colônia espanhola fracassada de Ciudad del Rey Don Felipe, no Chile, e confirma relatos históricos

Faces da moeda de prata descoberta no Chile / Crédito: Divulgação/Richard Bezzaza

Uma moeda de prata do século 16 descoberta no sul do Chile está ajudando arqueólogos a identificar com maior precisão a localização e a estrutura de uma colônia espanhola que fracassou poucos anos após sua fundação. O objeto, datado de 1584, foi encontrado durante escavações no sítio arqueológico de Ciudad del Rey Don Felipe, às margens do Estreito de Magalhães.

A peça foi localizada sobre uma pedra nas fundações subterrâneas do que teria sido a primeira igreja do assentamento. Segundo os pesquisadores, o posicionamento da moeda não é aleatório: ele corresponde a descrições históricas de cerimônias cristãs realizadas durante a fundação de colônias espanholas no Novo Mundo, nas quais objetos simbólicos eram depositados como parte do ritual.

“Esta descoberta proporciona um ponto de convergência raro e importante entre fontes escritas e evidências arqueológicas”, afirmou Soledad González Díaz, historiadora da Universidade Bernardo O’Higgins e líder do estudo, ao Live Science. “Isso não só ajuda a confirmar a localização e o layout de estruturas-chave dentro do assentamento, mas também abre novas possibilidades para reconstruir sua organização espacial”.

Pedra sobre a qual a moeda foi descoberta / Crédito: Divulgação/Richard Bezzaza

Lembrança do passado

A moeda de “8 reais” (“real de a ocho” em espanhol e a original “peça de oito” dos piratas) foi cunhada em prata e era amplamente utilizada no século 16. O achado reforça relatos do navegador espanhol Pedro Sarmiento de Gamboa, que teria liderado a fundação da colônia e descrito a cerimônia em seus registros. De acordo com González Díaz, o local exato onde a moeda foi encontrada coincide com os escritos históricos, fortalecendo a credibilidade das fontes documentais.

A Ciudad del Rey Don Felipe foi fundada em 1584 pela Coroa espanhola como parte de uma estratégia para controlar o Estreito de Magalhães, uma rota considerada estratégica entre os oceanos Atlântico e Pacífico. A iniciativa ocorreu após relatos de que o corsário inglês Francis Drake havia atravessado a região em 1578, o que gerou preocupação entre os espanhóis, que buscavam impedir o avanço de inimigos.

Apesar das intenções, a colônia rapidamente se transformou em um fracasso. Dos cerca de 350 colonos enviados ao local, a maioria morreu em poucos anos, vítima de doenças, fome e das condições climáticas extremas. Tentativas de reabastecimento também falharam, com navios naufragando em tempestades. A situação se agravou após a captura de Sarmiento de Gamboa por ingleses, em 1586, levando ao abandono definitivo do assentamento. Em 1587, um navio inglês encontrou o local em ruínas, com poucos sobreviventes.

A recente descoberta também contribui para a validação de um mapa histórico da colônia, há muito considerado incerto. Utilizando detectores de metal e instrumentos de geolocalização, os arqueólogos conseguiram identificar a posição da igreja e, a partir dela, inferir a organização do restante do assentamento, repecute o Live Science.

“Agora podemos ter certeza de que este é o local onde a igreja estava situada e, a partir daí, é fácil saber onde todas as outras estruturas foram construídas”, explicou o arqueólogo Francisco Garrido, do Museu Nacional de História Natural do Chile.

Ainda assim, nem todas as estruturas descritas nos registros históricos foram confirmadas. “As evidências de cabanas, igrejas e paliçadas defensivas ainda não são totalmente claras ou confirmadas arqueologicamente”, afirmou Simón Urbina, da Universidade do Sul do Chile, destacando a necessidade de novas escavações.

Os estudos também indicam que a área já era ocupada por populações indígenas antes e depois da presença espanhola, o que sugere que os colonizadores escolheram o local acreditando que ele oferecia melhores condições de sobrevivência. Ainda assim, segundo Urbina, a adaptação foi difícil: “O primeiro inverno deve ter afetado gravemente a população adulta que havia chegado da Espanha e que deveria caçar em um território desconhecido”.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.