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Maias rejeitavam a realeza divina durante tempos difíceis, indica novo estudo

Arqueólogos encontraram na Guatemala um salão datado do período Clássico Terminal, quando surgiram formas de governo mais colaborativas e baseadas em consenso

Este salão aberto com colunata — descoberto na cidade maia de Ucanal em 2024 — pode ter sido uma casa do conselho - Crédito: Divulgação/Christina Halperin

Por volta de 810 d.C., um homem chamado Papmalil chegou ao poder em Ucanal, uma cidade maia localizada no atual norte da Guatemala. Indícios linguísticos e artefatos encontrados na região sugerem que ele pode ter origem em uma comunidade de língua nahua do centro do México, sendo visto como um “forasteiro influente” em um período de instabilidade para os maias, segundo o antropólogo Simon Martin.

Sua ascensão ocorreu no contexto do fim do período Clássico (iniciado por volta de 300 d.C.), considerado o auge da civilização maia. Um estudo recente publicado na revista Antiquity traz novas interpretações sobre essa fase de transição.

De acordo com os pesquisadores, o chamado período Clássico Terminal (cerca de 810 a 1000 d.C.) marcou o surgimento de formas de governo mais colaborativas e baseadas em consenso. Nesse cenário, sob líderes como Papmalil, a população comum das terras baixas maias do sul passou a ter maior participação, enquanto o poder deixou de ficar concentrado exclusivamente nas mãos dos reis.

Como destaca o portal Smithsonian, o estudo em questão analisa um salão com colunata em Ucanal, datado do reinado de Papmalil. A estrutura é apontada como um possível exemplo inicial de casa de conselho, um espaço onde líderes se reuniam para deliberar sobre assuntos políticos, guerras, julgamentos, celebrações e outras atividades comunitárias, conforme explicou a arqueóloga Christina Halperin, da Universidade de Montreal.

Embora essas casas de conselho tenham se tornado comuns no período Pós-Clássico (aproximadamente de 1000 a 1521 d.C.), ainda havia dúvidas sobre como ocorreu a transição entre a monarquia divina do período Clássico e sistemas mais compartilhados de poder. Segundo Halperin, os reis continuaram atuando como chefes de Estado, mas passaram a dividir influência com outros líderes por meio de processos de consenso.

Evidências encontradas

Escavações em Ucanal também revelaram evidências de obras públicas promovidas por governantes do Clássico Terminal com o objetivo de beneficiar toda a população, não apenas a elite. O salão estudado ficava em uma praça aberta e possuía um formato que favorecia a participação do público, indicando que o apoio popular começou a se tornar relevante para a manutenção do poder.

Para aprofundar essas descobertas, Halperin pretende utilizar modelagem 3D a fim de entender melhor como diferentes tipos de construções foram experimentados ao longo do tempo, além de incentivar novas pesquisas sobre outras estruturas semelhantes.

Outro exemplo importante desse processo é Chichén Itzá, cidade maia que floresceu na região de Yucatán durante o Clássico Terminal e que adotou um sistema político mais descentralizado. Nesse modelo, governantes e conselhos compartilhavam o poder com base no controle de recursos, trabalho, estratégias militares e religião. Outras cidades seguiram caminhos semelhantes no período Pós-Clássico, com decisões sendo tomadas de forma mais coletiva, ainda que um líder principal fosse reconhecido temporariamente.

Reformulação das instituições

Contrariando a ideia popular de colapso, Halperin destaca que as sociedades maias não desapareceram ao fim do período Clássico. Em vez disso, passaram por uma reformulação de suas instituições e estruturas políticas, buscando equilibrar o poder anteriormente concentrado nos reis.

Em um estudo anterior, também publicado na Antiquity, Halperin e sua equipe analisaram um depósito queimado em Ucanal contendo restos humanos e objetos de um túmulo real do período Clássico Tardio. Eles sugerem que um governante do Clássico Terminal, possivelmente o próprio Papmalil, teria promovido a queima ritual desses vestígios como forma de marcar o início de uma nova fase política.

Para o arqueólogo Francisco Estrada-Belli, da Universidade de Tulane, essa atitude representa uma ruptura significativa com as antigas dinastias do período Clássico, simbolizando o encerramento de uma era e o começo de outra na história maia.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.