Governo da Rússia sugere terapia para mulheres que se recusam a ter filhos
Diante da queda na natalidade, o Ministério da Saúde russo adota medida polêmica para mulheres que não querem ter filhos, mas esbarra em críticas sobre a economia

As autoridades da Rússia passaram a recomendar psicoterapia para mulheres que não desejam ter filhos. O objetivo principal da medida, aprovada pelo Ministério da Saúde, é reverter a queda contínua na taxa de natalidade do país.
Atualmente, o índice demográfico russo está estagnado em 1,4 filho por mulher, número que fica bem abaixo do nível mínimo de reposição populacional.
Nesse cenário, a nova diretriz governamental orienta os profissionais de saúde a encaminharem essas pacientes para especialistas. A meta do presidente Vladimir Putin é promover uma atitude positiva sobre a maternidade na sociedade. Contudo, a iniciativa gerou forte indignação pública e foi classificada como coercitiva por diversas cidadãs ouvidas pela imprensa.
Economia e cultura patriarcal
De acordo informações repercutidas pelo jornal O Globo, as entrevistadas revelaram que a proposta ignora as verdadeiras causas estruturais por trás dessa decisão. Para Maria, uma jovem especialista em tecnologia, o Estado cria obstáculos em vez de oferecer o suporte prático para a formação de famílias.
Ela ressalta que as mulheres buscam garantias sociais básicas, rendas adequadas e segurança habitacional antes de engravidarem.
Além disso, o alto custo de vida afasta a possibilidade de independência financeira para as mães. A especialista Anastasia destacou que seu salário atual mal é suficiente para pagar um aluguel. Por conseguinte, ela lamenta a falta de cultura de paternidade no país, o que sobrecarrega as mulheres responsáveis por criar os filhos sozinhas após o divórcio.
Cerco aos direitos reprodutivos
Somado a esses desafios, o governo russo ampliou severamente o controle sobre as decisões reprodutivas femininas nos últimos anos.
Recentemente, uma nova legislação proibiu a “propaganda anti-filhos”, estabelecendo multas altíssimas para quem debater a escolha de não engravidar. Paralelamente a isso, o acesso ao aborto seguro em clínicas privadas foi duramente restringido em diversas províncias.
Por causa dessas políticas altamente restritivas, a professora Margarita teme que a saúde psicológica das cidadãs sofra danos irreversíveis. Na mesma linha de raciocínio, a médica Irina defende que nenhuma mulher deve ser forçada pelo Estado a gerar crianças indesejadas.
Em contrapartida, homens ouvidos pela AFP, como Maxim apoiam a diretriz ministerial e julgam a recusa à maternidade como um comportamento doentio.
*Sob supervisão de Éric Moreira