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Filme ‘perdido’ de Charlie Chaplin ganha versão em 4k

Filme lançado há cem anos ganhou nova versão fiel ao corte original; iniciativa partiu do Escritório Chaplin, detentor dos direitos autorais da obra

Chaplin em 'Em Busca do Ouro'
Chaplin em 'Em Busca do Ouro' - Getty Images

Em Busca do Ouro” (1925), filme clássico de Charlie Chaplin, ganhou recentemente uma nova restauração em 4K. A iniciativa partiu do Escritório Chaplin, detentor dos direitos autorais da obra, em comemoração ao centenário do filme. A versão restaurada teve sua estreia em 13 de maio, no Festival de Cannes. O longa mistura comédia, drama, romance e ação, acompanhando Carlitos (Chaplin) em sua jornada ao Alasca durante a corrida do ouro por volta de 1898.

Embora ainda estivesse disponível em plataformas como o Telecine, a versão mais conhecida era, na verdade, uma edição feita pelo próprio Chaplin em 1942. Nessa reedição, ele encurtou o filme de 88 para 72 minutos, removeu cenas, reorganizou a narrativa e adicionou uma narração com sua própria voz, além de nova trilha sonora. Chaplin acreditava ter melhorado a obra, tanto que ordenou a destruição das cópias originais.

“Uma nação à beira da Grande Depressão apreciou Em Busca do Ouro de 1925, em parte porque pontuou sua comédia pastelão com reflexões melancólicas sobre resistência, fome e solidão”, destaca Arnold Lozano, diretor do Escritório Chaplin. “Ele acreditava que o filme exigia uma revisão mais atualizada (e otimista) em 1942, pouco tempo depois de lançar O Grande Ditador”.

Décadas depois, pesquisadores como Kevin Brownlow e David Gill iniciaram uma busca pelos fragmentos perdidos da versão de 1925. Com base em uma cópia japonesa de “abertura total”, guardada nos arquivos Chaplin, eles conseguiram montar uma versão próxima da original em 1993. Ainda assim, essa restauração era considerada incompleta.

Com o avanço das tecnologias e a comunicação mais ágil, o Escritório Chaplin decidiu lançar uma busca internacional por cópias remanescentes. De acordo com o portal Galileu, arquivos como o Museu de Arte Moderna (MoMA) e o Museu George Eastman em Rochester responderam ao chamado, fornecendo materiais essenciais. Com isso, especialistas do laboratório L’Immagine Ritrovata, na Itália, iniciaram um novo processo de restauração em 4K.

O ponto de partida

Segundo Elena Tammaccaro, gerente do laboratório, o ponto de partida foi a duplicata negativa feita em 1993, que representava cerca de 70% do filme original com boa qualidade de imagem e moldura completa. Os 30% restantes foram reconstruídos a partir de cópias não autorizadas preservadas por técnicos que desobedeceram ordens de destruição — uma desobediência que, ironicamente, salvou parte do legado do cinema.

Além disso, foi encontrado um rolo de nitrato original no formato 4:3, típico da era do cinema mudo. O processo exigiu análise minuciosa quadro a quadro, respeitando os níveis de granulação, a coloração original e a integridade visual da obra. O uso de ferramentas digitais foi aplicado com moderação, apenas para recuperar quadros muito danificados ou desfocados.

O resultado, após dez meses de trabalho, é uma versão que representa fielmente o corte original de “Em Busca do Ouro”.

“Pela primeira vez em décadas, fãs novos e antigos poderão assistir ao que é, sem dúvida, a remontagem mais bem preservada e precisa de Em Busca do Ouro. Pode não ter sido o corte favorito de seu criador, mas seu retorno marca um momento importante tanto para a história do cinema quanto para a preservação. Cada uma serve como um reflexo de sua época”, conclui Lozano.

Confira o trailer do filme a seguir:

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.