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Cérebros de animais marinhos estariam diminuindo por causa da acidez dos oceanos

Estudo com polvos e lulas revelou que os cérebros desses animais podem sofrer uma redução de 50% do seu volume; entenda!

Imagem ilustrativa de polvo - Crédito: Getty Images

Uma discussão científica que recentemente ganhou novos contornos envolve o processo de acidificação dos oceanos. Conhecido principalmente pelos impactos sobre recifes de corais e outros organismos marinhos, o fenômeno agora também é associado a alterações no cérebro de cefalópodes, um grupo de animais marinhos do qual fazem parte lulas e polvos. Dados preliminares apresentados durante a conferência da Sociedade de Biologia Experimental, realizada em Florença, na Itália, indicam que o aumento da concentração de dióxido de carbono (CO₂) na água pode reduzir em cerca de 50% o volume cerebral desses animais, considerados alguns dos mais inteligentes dos oceanos.

O estudo concentrou-se na lula-de-recife-de-barbatana-grande (Sepioteuthis lessoniana), espécie conhecida por sua elevada capacidade cognitiva. Segundo os pesquisadores, as alterações foram mais intensas nas regiões cerebrais responsáveis pelo processamento de informações visuais, comprometendo diretamente o comportamento de caça e alimentação dos animais.

Para investigar os efeitos da acidificação, cientistas criaram lulas em dois ambientes controlados na Estação de Pesquisa Marinha da Academia Sinica, em Taiwan. Um dos tanques reproduzia as condições atuais dos oceanos, com pH de aproximadamente 8,2. O outro simulava um cenário previsto para o ano de 2100, considerando o avanço das mudanças climáticas, reduzindo o pH para 7,8 e tornando a água mais ácida.

Após 90 dias de desenvolvimento, os animais passaram por exames de ressonância magnética por difusão (RMd), técnica capaz de revelar detalhes da anatomia cerebral. Os resultados surpreenderam até os próprios pesquisadores.

“Percebi imediatamente que seus cérebros tinham metade do tamanho e precisei verificar o resultado do diagnóstico”, afirmou em comunicado Garett Allen, pesquisador da Universidade Acadia, no Canadá. “Foi uma verdadeira surpresa, eu não esperava isso de jeito nenhum.”

Como se deu a redução

Conforme repercutiu o portal de notícias Galileu, a redução não ocorreu apenas em uma área específica do cérebro, mas foi observada em praticamente todo o órgão. Ainda assim, as regiões mais afetadas foram os lobos ópticos e os tratos ópticos, estruturas fundamentais para a visão. Nessas áreas, o volume cerebral foi, respectivamente, 52% e 62% menor em comparação às lulas criadas nas condições atuais do oceano.

Mas os cientistas ressaltam que o encolhimento cerebral não está relacionado a uma diminuição do tamanho corporal dos animais. Durante a pesquisa, não foram identificadas diferenças no comprimento do manto — principal medida corporal das lulas —, o que indica que a alteração ocorreu especificamente na anatomia neural.

Como destacam os cientistas, os resultados ajudam a explicar descobertas feitas em estudos anteriores, que já haviam observado mudanças no comportamento alimentar da espécie quando exposta a concentrações elevadas de CO₂. Como esses cefalópodes dependem fortemente da visão para localizar e capturar presas, qualquer comprometimento das áreas cerebrais ligadas ao processamento visual pode afetar diretamente sua eficiência na caça.

Segundo Allen, a retina parece permanecer preservada, sugerindo que o problema não está na capacidade de captar imagens, mas sim no processamento dessas informações pelo cérebro.

Acreditamos que a menor disposição para se alimentar possa estar ligada a uma diminuição da acuidade visual. Não por causa da retina em si, que parece permanecer a mesma, mas talvez porque o lobo óptico esteja encolhendo”, explicou o pesquisador.

Tempo de exposição influencia

Os experimentos também revelaram que o tempo de exposição ao ambiente mais ácido influencia a intensidade das alterações comportamentais. Em indivíduos submetidos a apenas sete dias de altas concentrações de CO₂, os comportamentos de caça caíram cerca de 65%. Já aqueles expostos continuamente desde a eclosão, durante 90 dias, apresentaram uma redução de aproximadamente 42%.

Embora a associação entre a acidificação dos oceanos e a diminuição do cérebro dos cefalópodes seja considerada bastante consistente pelos pesquisadores, ainda não está claro qual mecanismo biológico provoca esse efeito.

Uma das hipóteses apontadas pelos cientistas é de que o cérebro passe a sofrer restrições energéticas em um ambiente mais ácido, dificultando seu desenvolvimento normal. Já a segunda possibilidade envolve o aumento de danos oxidativos às células nervosas. Caso essas hipóteses sejam confirmadas, isso poderá significar que o cérebro desses animais perde parte da capacidade de transmitir informações de forma eficiente, o que explicaria as alterações observadas em seus hábitos alimentares e comportamento.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.