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Cerâmicas revelam como era a alimentação no Brasil do século 19

Resíduos preservados em vasos mostram diferenças na alimentação de indígenas, africanos, europeus e luso-brasileiros no século 19; confira!

Fragmentos de cerâmica analisados em novo estudo / Crédito: Divulgação/Universidade Autônoma de Barcelona (UAB)

Uma pesquisa liderada por cientistas da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) utilizou técnicas de arqueologia molecular para reconstruir aspectos da alimentação de diferentes grupos sociais que viveram na Baía de Babitonga, no litoral norte de Santa Catarina, entre o fim do século 19 e o início do século 20.

O estudo, publicado em 15 de julho na revista Royal Society Open Science, analisou resíduos preservados em 180 recipientes cerâmicos e identificou diferenças marcantes entre os hábitos alimentares de comunidades indígenas, africanas, afrodescendentes, luso-brasileiras e imigrantes europeus.

Segundo os pesquisadores, o Brasil daquele período refletia, por meio da alimentação, a diversidade cultural e étnica formada ao longo de sua história. Embora a interação entre povos indígenas, populações africanas, comunidades luso-brasileiras e imigrantes tenha moldado a sociedade brasileira, ainda havia poucas informações sobre como essas diferenças se manifestavam no cotidiano alimentar de cada grupo.

Detalhes do estudo

Para responder a essa questão, a equipe recorreu à arqueologia molecular, área que permite identificar substâncias preservadas em objetos antigos. Os cientistas examinaram lipídeos presentes em mais de 180 fragmentos de cerâmica e proteínas encontradas em parte dessas peças, conseguindo determinar quais alimentos eram preparados ou armazenados nos recipientes.

Antes mesmo das análises químicas, as características das próprias cerâmicas já indicavam diferenças entre os grupos estudados. Os vasos utilizados por comunidades indígenas, africanas, afrodescendentes e luso-brasileiras eram moldados manualmente e empregados principalmente para armazenar peixes, frutos do mar e milho.

Já os recipientes associados aos imigrantes, especialmente europeus, eram produzidos em torno de oleiro. Nesses vasos, predominavam alimentos ligados à agricultura e à pecuária, como carnes, produtos cultivados em terra e até mesmo laticínios.

Os resultados laboratoriais confirmaram essas distinções. De acordo com os pesquisadores, comunidades indígenas, africanas e afrodescendentes dependiam mais intensamente dos recursos marinhos para sua alimentação, enquanto os chamados “gringos” — com destaque para os imigrantes alemães — consumiam principalmente vegetais e produtos agrícolas.

Os autores explicam que essa diferença estava relacionada às condições sociais e econômicas da época. Em comunicado, afirmaram que a pesca e a exploração dos recursos costeiros constituíam uma alternativa mais acessível para comunidades com poucos recursos financeiros. Em contraste, a criação de animais e determinadas culturas agrícolas estavam associadas à propriedade privada e ao fortalecimento de uma economia de mercado.

As análises também permitiram identificar, com alto grau de precisão, diversos alimentos consumidos há mais de um século. Entre eles estavam peixes da família Sciaenidae, ovos de galinha e biomarcadores compatíveis com o processamento de milho, arroz, mandioca, feijão, frutas, verduras e gorduras animais.

Para os pesquisadores, os resultados demonstram que os resíduos preservados nas cerâmicas funcionam como um registro direto das práticas alimentares do período, repercute a Revista Galileu.

Conforme destacou André Colonese, da UAB, “os resíduos preservados nessas cerâmicas mostram que a dieta cotidiana refletia as profundas diferenças sociais e culturais que caracterizavam o Brasil no final do século 19. A arqueologia molecular nos permite recuperar parte dessa história que dificilmente constaria em documentos escritos”.

A pesquisa reforça o potencial da arqueologia molecular para revelar aspectos do cotidiano que não aparecem nos registros históricos tradicionais. Ao analisar vestígios microscópicos preservados em objetos utilizados no passado, os cientistas conseguem reconstruir hábitos alimentares e compreender melhor como fatores sociais, econômicos e culturais influenciavam a vida das diferentes comunidades brasileiras há cerca de 180 anos.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.