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Estudo revela ‘linhagem fantasma’ asiática na origem dos indígenas americanos

Análise de quase 200 genomas revela linhagem asiática desconhecida e três ondas migratórias que moldaram os povos indígenas das Américas; entenda!

Mulheres Quechua / Crédito: Getty Images

Um estudo internacional publicado na revista Nature revelou novos detalhes sobre a formação genética dos povos indígenas das Américas, indicando a existência de uma população asiática até então desconhecida que contribuiu para a ancestralidade desses grupos. A pesquisa analisou quase 200 genomas e identificou vestígios de uma chamada “linhagem fantasma”, além de apontar que o povoamento da América do Sul ocorreu em pelo menos três ondas migratórias distintas.

Os resultados fazem parte do Projeto de Diversidade Genômica dos Indígenas Americanos, conduzido por uma equipe internacional de cientistas. Ao todo, foram examinados 128 genomas inéditos de indivíduos de países como Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru, abrangendo 45 populações e 28 famílias linguísticas. Esses dados foram combinados com outros 71 genomas previamente publicados, ampliando significativamente o conhecimento sobre a diversidade genética indígena no continente.

Segundo informa o pesquisador Marcos Araújo Castro e Silva, do Instituto de Biologia Evolutiva (IBE), em comunicado, o estudo também busca preencher lacunas deixadas por análises anteriores. “Até agora, apenas duas populações indígenas da Amazônia haviam sido caracterizadas geneticamente e, devido à particularidade de seu ambiente e ao seu isolamento, elas não eram muito representativas”. A pesquisa foi realizada em colaboração com comunidades indígenas, com o objetivo de integrar os achados científicos à história desses povos.

Ancestralidade americana

A análise genética permitiu identificar três grandes ondas migratórias responsáveis pelo povoamento da América do Sul. A primeira teria ocorrido há mais de 9 mil anos. Em seguida, uma segunda linhagem genética, atualmente associada a populações como os quéchuas do Peru, também se expandiu pela região. A principal novidade do estudo, no entanto, é a identificação de uma terceira dispersão populacional até então desconhecida, que teria ocorrido há cerca de 1.300 anos, possivelmente a partir de grupos relacionados à Mesoamérica.

De acordo com a pesquisadora Tábita Hünemeier, o fenômeno não está ligado a um único evento histórico específico, mas a um processo gradual. “O que vemos é um processo mais gradual e complexo, provavelmente envolvendo o aumento da conectividade e do fluxo gênico entre a Mesoamérica, o Caribe e a América do Sul ao longo do tempo”, disse ao Live Science. Essa dinâmica sugere interações contínuas entre diferentes populações ao longo dos séculos.

Outro achado relevante do estudo é a identificação de traços genéticos de uma antiga população asiática desconhecida, denominada Ypykuéra — termo que significa “ancestral” em língua tupi. Essa linhagem teria contribuído geneticamente tanto para os povos indígenas das Américas quanto para populações da Oceania, como australianos e neozelandeses. Embora presente em baixos níveis, esse sinal genético é consistente há mais de 10 mil anos, apesar de não haver registros fósseis desse grupo até o momento.

Os pesquisadores destacam que esses resultados reforçam a complexidade do processo de ocupação do continente americano. “No geral, ambas as descobertas reforçam a ideia de que o povoamento das Américas foi mais dinâmico e complexo do que se pensava anteriormente”, afirmou Hünemeier, acrescentando que houve “contribuições de populações ancestrais que ainda não estão representadas no registro arqueológico ou fóssil”.

Além das migrações, o estudo também investigou características genéticas associadas à adaptação dos povos indígenas aos diferentes ambientes do continente, como a floresta amazônica e a região andina. Foram identificados genes relacionados à imunidade, ao metabolismo, à fertilidade, ao crescimento fetal e à proteção contra doenças como a malária, indicando que a seleção natural desempenhou papel importante na sobrevivência dessas populações.

Apesar disso, a diversidade genética atual dos povos indígenas representa apenas parte do que existia no passado. “A diversidade genética atual representa apenas uma fração da original, já que a colonização [europeia] dizimou as populações indígenas em 90%”, explicou Hünemeier. Ainda assim, os dados apontam para uma continuidade genética significativa em algumas regiões ao longo de mais de 9 mil anos, repercute o Live Science.

Para o antropólogo Carlos Eduardo Amorim, da Universidade Estadual do Arizona, o estudo oferece uma visão abrangente sobre a história genética desses grupos. “Informações genéticas de populações indígenas americanas são essenciais porque esses grupos têm sido historicamente sub-representados em pesquisas genômicas, deixando grandes lacunas em nossa compreensão da diversidade humana, evolução e saúde”, pontua em comunicado. Ele acrescenta: “Nossas descobertas fornecem a visão mais abrangente da diversidade genômica e da história evolutiva dos indígenas americanos até o momento.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.