Matérias / Arqueologia

Manuscrito inédito teria sido escrito por Padre José de Anchieta

Pesquisador defende tese de doutorado envolvendo manuscrito inédito que teria sido escrito por Padre José de Anchieta no ano de 1568

Retrato do Padre José de Anchieta Obra de Benedito Calixto - Crédito: Domínio público

Um manuscrito encontrado na residência dos jesuítas de Itu, no interior de São Paulo, pode ser em breve confirmado como uma obra inédita do missionário Padre José de Anchieta. O documento, que possui formato de códice, estava em avançado estado de deterioração, com folhas descosturadas e marcas da ação do tempo, como danos provocados por traças e outros insetos. Apesar disso, as primeiras análises foram capazes de indicar que o texto seria uma selecta latina, um tipo de material didático utilizado na formação de estudantes dos colégios jesuítas, fortemente inspirado no programa de ensino do Colégio das Artes de Coimbra, em Portugal.

O historiador Felipe de Assunção Soriano soube da existência do manuscrito ainda em 2016, quando ele era pároco da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, atual Santuário Nacional de São José de Anchieta. O documento fazia parte da biblioteca da causa de canonização do missionário, na cidade de Anchieta (ES). Anos mais tarde, o achado se tornaria o foco de sua pesquisa de doutorado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Após localizar o manuscrito no fim de 2024, na residência dos jesuítas de Itu, Soriano obteve autorização para examiná-lo e deu início aos seus estudos, que se estenderam por três meses e que, segundo ele, permitiram comprovar sua autenticidade e identificar evidências que relacionam sua composição à produção latina de Anchieta. Até então, havia muitas dúvidas acerca da origem e autoria do pequeno códice, apesar de ter integrado os trabalhos da comissão literária jesuíta responsável pela publicação de importantes obras atribuídas ao missionário, como o Poema da Virgem e o épico De Gestis Mendi de Saa.

Nesse cenário, os pesquisadores concentraram-se na revisão dos textos já publicados e iniciaram uma nova etapa do projeto editorial, com a criação da Monumenta Anchietana. Contudo, embora as transcrições realizadas em 1940 tenham sido confiadas a outros especialistas, no Brasil e em Coimbra, nada de substancial foi estabelecido acerca da natureza do manuscrito. De fato, o impasse relativo à autoria não era apenas literário, como se pensava, mas, sobretudo, historiográfico. Naquele momento, ainda não havia sido concluída a revisão e a tradução de todo o corpus latino, dramático, catequético, histórico e homilético relacionado a José de Anchieta”, disse o pesquisador em entrevista ao Aventuras na História.

Os detalhes da investigação serão apresentados hoje, dia 27 de julho, durante a defesa da tese de doutorado do historiador, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

A seguir, você confere mais sobre a tese de Soriano, intitulada “Entre a crítica e a tradição: a construção da autoria em um manuscrito atribuído a José de Anchieta”:

Desafios encontrados

Obtida a autorização para acessar o manuscrito, o historiador deu início ao estudo detalhado do documento. No entanto, a tarefa não foi nada simples. Com séculos de existência e em avançado estado de deterioração, o códice exigiu meses de análise para que seus detalhes pudessem ser compreendidos.

Além das diminutas dimensões das folhas — 10 cm de altura por 7 cm de largura —, [as maiores dificuldades] foram as péssimas condições de conservação do papel, atravessado e danificado por traças e outros insetos”, contou o pesquisador.

Outro desafio destacado por Soriano foi a grande quantidade de abreviaturas presentes no manuscrito. Além disso, a transcrição realizada anteriormente alterou a ordem original das composições. Isso dificultou a identificação dos gêneros literários relacionados à virtus educativa. Diante dessas evidências, o pesquisador conclui que o manuscrito deve ser compreendido simultaneamente como um material de uso pessoal e como uma selecta latina destinada à prática docente.

Evidências consistentes

Questionado sobre as evidências que o teriam levado a atribuir o manuscrito a José de Anchieta, o doutorando destacou:

O primeiro impasse que procuramos resolver dizia respeito à autenticidade e à datação do manuscrito. Para alcançar esses resultados, recorremos ao estudo da marca-d’água, também chamada filigrana, por meio do qual comprovamos sua autenticidade, identificamos a natureza do papel e estabelecemos sua data de fabricação: 1568.

Além disso, o pesquisador buscou datar as composições reunidas no manuscrito. Assim, verificou que grande parte delas remontava a um período delimitado da história do Colégio das Artes de Coimbra, que é sua fase pré-jesuítica, compreendida entre os anos de 1548 e 1555. A constatação permitiu situar o documento em um contexto mais preciso.

No manuscrito, encontramos epigramas com bom nível de elaboração relacionados à devoção à Rainha Santa Isabel, cultivada entre os alunos do Colégio das Artes de Coimbra. Identificamos também outro conjunto de paráfrases, com erros de métrica, relacionadas a George Buchanan, que foi professor de José de Anchieta no Colégio das Artes. Da mesma forma, encontramos outras composições relacionadas à biografia anchietana, aplicáveis ao contexto do cativeiro de Iperoig, além de textos que podem ser compreendidos como etapas preparatórias da redação de seu célebre poema mariano.

Critérios utilizados

Diante da constatação de que a questão envolvia não apenas aspectos literários, mas principalmente historiográficos, o doutorando e sua equipe optaram por adotar o paradigma indiciário, desenvolvido pelo historiador Carlo Ginzburg. A metodologia mostrou-se adequada porque o manuscrito reúne textos produzidos em diferentes épocas, combinando composições que circulavam no ambiente escolar jesuítico com outras de caráter autoral.

A forma como o paradigma indiciário aborda as evidências levantadas pela investigação permitiu-nos reformular a pergunta inicial e adotar um instrumental dinâmico para interrogar um documento que não possuía referência autoral direta nem assinatura. A única hipótese de que dispúnhamos estava relacionada à opinião do padre que realizou a transcrição do manuscrito. Ele reconheceu que aquelas composições eram semelhantes às que ouvira durante a leitura do Poema da Virgem no refeitório. Aplicamos também o método histórico-crítico e a análise comparada para construir nossa hipótese investigativa, alcançando resultados consistentes.

O pesquisador prosseguiu:

Por fim, constatamos que a questão da autoria não poderia ser compreendida a partir da lógica contemporânea, segundo a qual o autor corresponde necessariamente a um único indivíduo responsável por um ato criativo e original. Por essa razão, propusemos a categoria de ‘autoria mediada’. No século XVI, aquele que organizava o livro e incorporava às suas composições e outras obras em circulação continuava sendo considerado autor. Esse último movimento considera que o manuscrito possui uma unidade intrínseca, que não permite desmembrar suas partes sem causar prejuízo à sua compreensão geral (Programa de estudo). Soma-se a essa constatação a recorrência de determinados elementos lexicais em diferentes composições, assim como a presença de um habitus medieval, garantindo a unidade do códice.

Ao final da avaliação, foi possível classificar o documento como uma selecta latina, que é basicamente um manuscrito pertencente a um professor de latim. Essa interpretação se baseia na presença de exercícios dedicados a diferentes gêneros literários, bem como de duas peças de teatro neolatinas.

Impactos da descoberta

Um dos grandes impactos dessa descoberta, segundo o historiador, é que ela oferece “mais um elemento que evidencia a amplitude da produção latina atribuída a José de Anchieta.” Além disso, ajuda a esclarecer episódios relatados por biógrafos do missionário.

Como ressalta Felipe de Assunção Soriano, outro aspecto destacado pela investigação é a evidência da circulação de materiais didáticos jesuíticos entre o Colégio das Artes de Coimbra e os colégios estabelecidos no Brasil. Na visão do pesquisador, o manuscrito demonstra a influência desse modelo pedagógico e sugere a continuidade de seu uso por um longo período.

Por fim, é importante destacar que o códice reúne importantes indícios sobre o desenvolvimento do teatro neolatino em território brasileiro, “considerando contextos específicos e espaços educativos delimitados, e permite entrever o nascimento do teatro anchietano.”

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.