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Caranguejo sobreviveu 2 meses à deriva preso em garrafa plástica no mar

Estudo revela como caranguejo sobreviveu por 2 meses após crescer dentro de embalagem plástica à deriva e expõe impacto da poluição nos mares

Caranguejo preso dentro de garrafa / Crédito: Divulgação/Universidade de Hiroshima/Hajime Sato

Um caranguejo-nadador (Portunus sanguinolentus) sobreviveu por cerca de dois meses preso dentro de uma garrafa plástica que flutuava no mar próximo à ilha de Okinawa, no Japão. O caso, descrito em um estudo publicado em abril na revista Ecosphere, chamou a atenção de pesquisadores da Universidade de Hiroshima por revelar como resíduos plásticos podem se transformar em armadilhas para pequenos animais marinhos.

Segundo os cientistas, o crustáceo foi encontrado dentro de uma garrafa cuja abertura media apenas 24 milímetros de diâmetro. No momento da descoberta, porém, o animal já possuía 88,23 milímetros de largura, indicando que ele entrou na embalagem ainda jovem e cresceu até ficar grande demais para conseguir sair.

A descoberta ocorreu durante um levantamento de peixes juvenis realizado em águas costeiras. A aproximadamente 500 metros da Ilha Sesoko, os pesquisadores localizaram uma garrafa de vinho Shaoxing fabricada em PEAD (polietileno de alta densidade), um plástico rígido amplamente utilizado na produção de embalagens.

Ao retirar o recipiente do mar, a equipe verificou que ele permanecia aberto, permitindo a circulação da água salgada em seu interior. Mesmo assim, o caranguejo continuava preso dentro da garrafa.

Como sobreviveu?

Para entender como o animal conseguiu sobreviver naquele ambiente, os pesquisadores recorreram a diferentes análises biológicas.

A garrafa foi recolhida em 15 de julho de 2022 e apresentava uma marca de fabricação datada de 17 de novembro de 2021. Como o tamanho do caranguejo era incompatível com a abertura do recipiente, os cientistas concluíram que ele havia entrado ainda em fase juvenil.

Uma das etapas da investigação consistiu na análise do DNA presente no conteúdo estomacal do crustáceo. Esse método permite identificar fragmentos genéticos dos organismos consumidos pelo animal mesmo após o processo de digestão.

Os resultados mostraram que o caranguejo se alimentou de filhotes de peixes que nadavam nas proximidades da garrafa, incluindo espécies como o peixe-porco-áspero (Canthidermis maculata) e o sargento-mor (Abudefduf vaigiensis). Os pesquisadores também indicam que ele provavelmente consumiu algas que cresceram na parte interna da embalagem.

Outra pista importante veio da presença de cracas aderidas à superfície externa da garrafa. Esses organismos marinhos permanecem fixados a objetos submersos e apresentam crescimento contínuo ao longo do tempo.

Com base na taxa de crescimento da espécie Lepas anserifera, os pesquisadores conseguiram estimar há quanto tempo o recipiente estava à deriva, informação que ajudou a reconstruir a trajetória da garrafa e o período em que o animal permaneceu aprisionado.

Garrafa com algas e cracas, peixes coletados junto dela e o caranguejo retirado dela / Crédito: Divulgação/Universidade de Hiroshima/Hajime Sato

Poluição nos mares

Além de esclarecer o episódio específico, o estudo chama a atenção para um impacto menos conhecido da poluição plástica sobre os ecossistemas marinhos, repercute a Revista Galileu.

Normalmente, os efeitos desse tipo de resíduo são associados à ingestão de plástico por tartarugas ou ao aprisionamento de aves e mamíferos marinhos em redes de pesca. No entanto, os pesquisadores destacam que embalagens descartadas também podem representar riscos significativos para organismos menores.

Segundo o estudo, recipientes plásticos podem funcionar como armadilhas involuntárias, permitindo que animais jovens entrem em seu interior, mas impedindo sua saída conforme crescem.

Os autores ressaltam ainda que esse não é um caso isolado. Situações semelhantes já haviam sido registradas anteriormente em águas japonesas, indicando que o fenômeno pode ocorrer com mais frequência do que se imaginava.

“Gostaríamos que os leitores reconhecessem que objetos que tornam nossas vidas mais convenientes podem, às vezes, ter efeitos inesperados sobre pequenos animais marinhos”, escrevem os autores do estudo, Hajime Sato e Yoichi Sakai, em comunicado.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.