Quadro do século 17 antecipou descoberta científica sobre morcegos em 400 anos

"Ar", criada por Jan Brueghel em 1611, retratou morcego capturando ave em pleno voo — interação que só confirmada por pesquisadores em 2025

"Ar", de Jan Brueghel / Crédito: Domínio Público

Uma pintura produzida no início do século 17 voltou a chamar a atenção de pesquisadores por representar um comportamento animal que só foi confirmado cientificamente mais de 400 anos depois. A obra “Ar”, do artista flamengo Jan Brueghel, o Velho, retrata um morcego-noturno-grande (Nyctalus lasiopterus) capturando uma ave em pleno voo, cena que coincide com descobertas recentes sobre a alimentação dessa espécie.

A relação entre a pintura e a ciência foi apresentada por pesquisadores de diferentes instituições da Espanha em um estudo publicado em 29 de junho na revista científica PNAS. Segundo a equipe, a imagem pode representar a primeira evidência conhecida desse comportamento predatório, muito antes de ele ser registrado por métodos científicos modernos.

Produzida em 1611, a obra mostra uma paisagem natural povoada por anjos e dezenas de aves em voo. Além de retratar com riqueza de detalhes mais de 60 espécies de pássaros, Jan Brueghel também incluiu três espécies de morcegos. Entre elas, os pesquisadores identificaram uma figura que, segundo o estudo, corresponde claramente ao morcego-noturno-grande.

Na pintura, o animal aparece segurando uma pequena ave passeriforme na boca, detalhe que chamou a atenção dos cientistas após a publicação, em 2025, da primeira confirmação científica de que essa espécie caça pássaros durante o voo.

Morcegos destacados em “Ar” / Crédito: Divulgação/PNAS/Jan Brueghel, Daniel Fernández, Elena Tena

Entendendo o comportamento

Para documentar esse comportamento, os pesquisadores realizaram monitoramentos envolvendo deslocamento, registros acústicos e altitude de voo dos morcegos. Os resultados, publicados anteriormente na revista Science, demonstraram que o Nyctalus lasiopterus realmente captura aves migratórias enquanto elas voam à noite.

A descoberta levou os autores do novo estudo a revisitar a obra de Brueghel em busca de possíveis conexões entre arte e conhecimento natural, de acordo com a Revista Galileu.

“Foram produzidas diversas versões de Ar – por Brueghel ou por seus aprendizes – e apenas a versão analisada aqui inclui a cena da predação (…) Embora o comportamento retratado não corresponda totalmente às descrições contemporâneas do manuseio de presas, a especificidade desta cena de predação sugere alguma familiaridade do artista com esse comportamento”, explicam os autores no artigo.

Embora morcegos sejam conhecidos principalmente por se alimentarem de insetos, frutas ou néctar, algumas espécies de grande porte desenvolveram hábitos carnívoros. Entre elas estão o Vampyrum spectrum e o Chrotopterus auritus. Ainda assim, segundo os pesquisadores, o morcego-noturno-grande permanece como o único conhecido por capturar aves diretamente durante o voo.

Morcegos destacados no quadro de Brueghel e fotografias das espécies / Crédito: Divulgação/PNAS/Jan Brueghel, Daniel Fernández, Elena Tena

Os cientistas afirmam que não é possível determinar se Jan Brueghel realmente testemunhou esse comportamento ou se obteve a informação por outras vias. A hipótese permanece em aberto, mas a equipe considera algumas possibilidades.

Entre elas está a de que o pintor possa ter observado diretamente episódios de caça ou encontrado indícios indiretos, como fezes do animal contendo restos de penas. Qualquer uma dessas experiências poderia ter servido de inspiração para incluir a cena em uma das versões da pintura.

Apesar da coincidência entre a obra e os dados científicos atuais, os pesquisadores ressaltam que pinturas históricas devem ser interpretadas com cautela, já que frequentemente incorporam elementos simbólicos e alegóricos.

Ainda assim, eles consideram que alguns aspectos específicos fortalecem a hipótese de uma observação baseada na natureza. “O fato de um morcego-noctule, e nenhuma outra espécie de morcego, estar representado nesta cena sugere uma inspiração observacional em vez de uma convenção puramente simbólica,” escrevem no artigo.

O estudo também destaca que novas tecnologias poderão ampliar esse tipo de investigação. Com o avanço das técnicas de digitalização de obras de arte e de análise das diferentes camadas de tinta, os pesquisadores esperam revelar detalhes ainda ocultos em pinturas históricas.

Segundo os autores, esse tipo de abordagem pode contribuir não apenas para a história da arte, mas também para a compreensão de conhecimentos sobre a natureza registrados por artistas séculos antes de serem documentados pela ciência moderna.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.