Notícias / Animais

Após um século, periquito raro volta a nascer livre na Caatinga

Espécie considerada extinta na região há mais de um século volta a se reproduzir em liberdade; 33 ovos foram registrados em ninhos artificiais

Periquitos-cara-suja voltam a se reproduzir na Caatinga / Créditos: Reprodução/ Instagram / Projeto Periquito Cara-suja e Associação Caatinga

Um hiato histórico na biodiversidade brasileira chegou ao fim no dia 17 de março de 2026. Após mais de um século sem registros de reprodução na região, filhotes de periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus) nasceram na Reserva Natural Serra das Almas, localizada na divisa entre o Ceará e o Piauí.

O marco consolida uma nova e promissora fase na preservação de uma das aves mais raras e ameaçadas do Brasil.

Adaptação acelerada

De acordo com informações repercutidas pelo portal Metrópoles, o renascimento da espécie no bioma é fruto de um intenso esforço de reintrodução iniciado ainda em 2024. Inicialmente, os pesquisadores do Projeto Cara-Suja instalaram caixas-ninho de madeira pela reserva, simulando de forma estratégica os ocos das árvores, recurso escasso no local.

Como resultado dessa intervenção fundamental, a equipe encontrou 33 ovos apenas nesta temporada, superando as expectativas iniciais.

Além disso, a rápida adaptação do grupo atual de 23 indivíduos surpreendeu os especialistas de maneira muito positiva. Por serem originários de áreas com maior umidade, os periquitos precisaram aprender a identificar predadores específicos da Caatinga, localizar novas fontes de alimento e estabelecer territórios em um clima semiárido.

Dessa forma, o fato de se reproduzirem em menos de um ano indica que estão se estabelecendo excepcionalmente bem em seu novo habitat.

Do resgate à liberdade

A trajetória dessas aves envolve uma complexa e essencial rede de cooperação para combater os crimes ambientais. Grande parte dos periquitos soltos na Serra das Almas sobreviveu ao tráfico de animais silvestres ou ao cativeiro ilegal.

Por conseguinte, antes de finalmente ganharem a liberdade, eles passaram por um rigoroso processo de reabilitação promovido pelo Parque Arvorar, trabalhando sempre em conjunto com o Ibama.

Para a gerente do parque, Leanne Soares, ver o ciclo biológico se completar com o nascimento dos filhotes na natureza é a maior prova da eficácia do manejo. “Acompanhamos desde o resgate até vê-las formando casais e se reproduzindo. É a prova de que o trabalho está dando resultado”, celebrou a profissional.

Monitoramento contínuo

Apesar do grande otimismo com os resultados recentes, a Associação Caatinga alerta que a fase atual exige muita cautela. Durante as primeiras semanas de vida, os recém-nascidos são extremamente vulneráveis aos desafios do meio ambiente.

Entre os principais riscos estão a possível predação, a dificuldade dos pais em alimentar todos os filhotes ou até o alagamento dos ninhos artificiais devido às fortes chuvas na região. Contudo, se as condições permanecerem favoráveis, a projeção é que a população desses periquitos possa dobrar em um curto período.


*Sob supervisão de Éric Moreira