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Antigos egípcios dominaram o bronze arsênico há 4 mil anos

Nova pesquisa revela que metalúrgicos egípcios do Reino Médio já produziam bronze arsenical intencionalmente, desafiando antigas crenças

Bronze arsênico - Getty Images

Uma nova pesquisa publicada na revista Archaeometry trouxe à luz a primeira evidência direta da produção deliberada de bronze arsenical no Antigo Egito, sugerindo que os metalúrgicos do Reino Médio possuíam um nível tecnológico mais avançado do que se pensava anteriormente.

A descoberta ocorreu na Ilha de Elefantina, nas proximidades de Aswan, e remonta ao período entre 2000 e 1650 a.C. Os pesquisadores identificaram a presença de “speiss”, um subproduto metalúrgico que contém altos níveis de arsênio, ferro e chumbo, utilizado intencionalmente como reagente na fabricação do bronze arsenical. Este é o primeiro exemplo documentado de liga controlada com arsênio na metalurgia egípcia.

Por muito tempo, os cientistas acreditaram que o cobre arsenical da antiga civilização egípcia era resultado de contaminação natural do minério de cobre. No entanto, as novas evidências revelam que os metalúrgicos do Reino Médio manipulavam deliberadamente a composição química dos metais. Ao adicionar speiss ao cobre fundido, eles aumentavam a dureza e a durabilidade do bronze — características essenciais para ferramentas, armas e objetos rituais.

A equipe de pesquisa, liderada pelo engenheiro Jiří Kmošek da Academia de Belas Artes de Viena e pela Academia Checa de Ciências, juntamente com o Dr. Martin Odler da Universidade de Newcastle, analisou detritos metalúrgicos da área de assentamento em Elefantina. O estudo foi realizado em colaboração com o Instituto Arqueológico Alemão – Departamento do Cairo, o Institut français d’archéologie orientale e o Centro de Pesquisa do Deserto no Cairo, sob a aprovação do Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito.

Identificações

Através da aplicação de análises composicionais e microestruturais avançadas, incluindo fluorescência de raios X portátil (pXRF), microscopia óptica e microscopia eletrônica de varredura com espectroscopia de raios X por dispersão de energia (SEM-EDX), os pesquisadores identificaram fragmentos de speiss de origem metalúrgica datando da 12ª Dinastia do Egito (século 19 a.C.). As amostras foram coletadas da Casa 175, confirmando que o cobre foi ligado ao arsênio em crisol cerâmico por meio de um processo controlado de cimentação.

O estudo retrata várias etapas do processo produtivo antigo, indicando que o speiss não apenas introduziu arsênio, mas também pequenas quantidades de antimônio e chumbo no metal final. Esses elementos adicionais provavelmente influenciaram tanto a composição física do bronze quanto a composição isotópica utilizada por pesquisadores modernos para rastrear a origem do metal, complicando estudos sobre proveniência.

Embora a origem do speiss permaneça desconhecida, os pesquisadores acreditam que ele foi obtido a partir de minérios de arsenopirita no Deserto Oriental do Egito. Isso sugere acesso a recursos especializados e possivelmente conexões comerciais com comunidades locais ou regionais que mineravam e processavam esse tipo de material.

A descoberta revela uma sociedade já sofisticada o suficiente para refinar técnicas metalúrgicas há quase 4.000 anos — muito antes que tais técnicas se tornassem comuns em outras partes do mundo. Curiosamente, o uso controlado do speiss demonstra não apenas um conhecimento científico avançado, mas também uma compreensão apurada sobre a aquisição de recursos e transformação de materiais.

Segundo o ‘Archaeology News’, esse achado abre portas para investigações adicionais sobre como os artesãos antigos adquiriram e compartilharam conhecimentos metalúrgicos através do Egito e além da região do Oriente Médio.