Açúcar encontrado no espaço pela primeira vez revela pistas sobre origem da vida
Molécula descoberta em nuvem da Via Láctea reforça hipótese de que ingredientes essenciais à vida são comuns no Universo; entenda!

Uma equipe internacional de astrônomos realizou uma descoberta inédita ao identificar, pela primeira vez, um açúcar verdadeiro fora do Sistema Solar. A molécula chamada eritrulose foi encontrada em uma grande nuvem de gás e poeira localizada próxima ao centro da Via Láctea, a aproximadamente 26 mil anos-luz da Terra.
O estudo, publicado na revista científica Nature Astronomy, pode ajudar cientistas a compreender melhor como compostos associados à vida surgem no espaço e se espalham pelo Universo. Para os pesquisadores, a descoberta aumenta a possibilidade de que outros mundos tenham acesso a ingredientes químicos semelhantes aos que participaram da formação da vida como conhecemos.
A eritrulose é um açúcar formado por quatro átomos de carbono e pertence a uma família de moléculas importantes para processos biológicos. Na Terra, açúcares desse grupo podem atuar como fontes de energia, participar da formação de estruturas dos organismos e integrar componentes fundamentais do material genético.
O DNA, por exemplo, possui a desoxirribose em sua estrutura, enquanto o RNA contém a ribose. Já a eritrulose é conhecida no planeta por estar presente em frutas vermelhas, como framboesas e morangos.
Primeiro açúcar verdadeiro encontrado fora da Terra
Antes dessa descoberta, os cientistas já haviam identificado moléculas semelhantes a açúcares no espaço, como o glicolaldeído. No entanto, apesar de possuir uma estrutura química parecida, ele não é considerado tecnicamente um açúcar.
Segundo a astrônoma Izaskun Jiménez-Serra, do Centro de Astrobiologia da Espanha (CAB-CSIC/INTA) e principal autora do estudo, essa diferença é fundamental para entender a importância da descoberta.
“Embora se tenha dito que o glicolaldeído foi o primeiro açúcar detectado no espaço, por ter uma estrutura química análoga à dos açúcares, ele não é considerado um açúcar”, explicou a pesquisadora.
Com a identificação da eritrulose, os cientistas confirmaram pela primeira vez a presença de uma molécula classificada oficialmente como açúcar em uma região fora do Sistema Solar.
Uma assinatura química escondida no espaço
A descoberta foi possível graças aos dados coletados por dois radiotelescópios localizados na Espanha: o Yebes 40m e o IRAM 30m.
Os equipamentos analisaram a nuvem molecular conhecida como G+0,693-0,027, uma das regiões mais ricas em moléculas químicas já estudadas dentro da Via Láctea. Nesse ambiente, diferentes substâncias liberam sinais de rádio que podem ser identificados pelos pesquisadores.
Encontrar uma molécula específica em meio a tantos sinais é um grande desafio. A situação pode ser comparada a tentar reconhecer a voz de uma única pessoa em uma multidão onde centenas de indivíduos falam ao mesmo tempo.
Para confirmar a presença da eritrulose, os pesquisadores compararam os sinais captados pelos telescópios com dados obtidos anteriormente em laboratório. Nesses experimentos, cada molécula possui uma espécie de “impressão digital” química conhecida pelos cientistas.
A comparação revelou uma correspondência precisa entre os sinais observados no espaço e os padrões registrados em laboratório, repercute o g1.
Além disso, a equipe identificou mais de 180 outras espécies moleculares presentes na mesma nuvem, aumentando a confiança na detecção da eritrulose.
Ingredientes da vida podem ser comuns no Universo
A presença desse tipo de molécula em uma região distante da Terra reforça a ideia de que compostos fundamentais para a química da vida podem surgir naturalmente em diferentes ambientes espaciais.
Embora a descoberta não signifique que exista vida fora do planeta, ela mostra que algumas das peças químicas associadas aos organismos terrestres podem estar espalhadas pelo Universo.
Para os cientistas, entender como essas moléculas aparecem no espaço ajuda a reconstruir a história química que antecedeu a formação dos planetas e pode indicar como mundos diferentes poderiam desenvolver condições favoráveis para processos semelhantes aos da Terra.
A descoberta da eritrulose representa mais um passo na busca por compreender a origem dos ingredientes que tornaram possível a vida em nosso planeta e amplia a visão sobre a diversidade química existente na galáxia.
*Sob supervisão de Éric Moreira