A pintura saqueada que pode ajudar a achar obras perdidas
Pintura de Giuseppe Ghislandi desapareceu por 80 anos e ressurgiu em anúncio; justiça apura ocultação de roubo ligado ao Holocausto

Uma pintura saqueada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial voltou a ser alvo de investigação internacional após reaparecer em circunstâncias inusitadas. O Retrato de uma Senhora, obra do pintor italiano Giuseppe Ghislandi, havia desaparecido há oito décadas, até ser identificado no mês passado em uma foto publicada por uma imobiliária.
A tela estava pendurada em uma casa que pertenceu a Friedrich Kadgien, ex-conselheiro de Hermann Göring, um dos principais responsáveis pelo roubo de milhares de obras de arte na Europa ocupada.
Após a descoberta, a filha de Kadgien, Patricia Kadgien, e o marido foram colocados em prisão domiciliar por três dias a partir da última segunda-feira, 1. Eles devem responder por obstrução de investigação e poderão ser acusados formalmente de “ocultação de roubo no contexto de genocídio”, segundo autoridades judiciais locais.
O casal insiste que herdou a pintura legitimamente. “Eles cooperarão com as autoridades”, afirmou o advogado Carlos Murias ao jornal argentino La Capital. No entanto, até esta terça-feira, a obra ainda não havia sido entregue às autoridades.
Buscas pela pintura
Buscas foram realizadas em quatro propriedades ligadas à família. Em uma delas, pertencente à irmã de Patricia, investigadores localizaram duas pinturas adicionais, além de desenhos e gravuras do século 19. As peças agora passam por análise para determinar se também foram saqueadas durante a guerra.
O Retrato de uma Senhora fazia parte da coleção do negociante de arte judeu Jacques Goudstikker, cuja galeria em Amsterdã foi confiscada pelos nazistas após sua morte. Grande parte de seu acervo foi vendida sob coerção. Hoje, as obras estão registradas em bancos de dados internacionais de arte saqueada.
Especialistas acreditam que a pintura pode ter sido retirada às pressas da residência da família Kadgien logo após a repercussão da reportagem holandesa que revelou seu paradeiro. O jornal Algemeen Dagblad relatou que, em substituição, um tapete decorativo com cavalos passou a ocupar o local onde a tela estava pendurada.
A herdeira do acervo, Marei von Saher — nora de Goudstikker —, já conseguiu recuperar mais de 200 obras desde 2006 e prometeu continuar a luta pela restituição. “Nosso objetivo é trazer de volta todas as peças roubadas da coleção e restaurar o legado de Jacques”, declarou ao jornal.