A história por trás da “pintura do inferno” de 500 anos

Obra portuguesa pouco conhecida retrata o inferno com figuras que evocam as Américas e a África, em alusão ao comércio global

Inferno
Inferno (autor anônimo) - domínio público

A obra intitulada “Inferno”, atribuída a um artista anônimo e datada entre cerca de 1510 e 1520, representa um painel de grandes dimensões onde demônios torturam almas em chamas, associando os sete pecados mortais a punições viscerais. Dominado por uma caldeira fumegante ao centro, o mundo submerso do pecado é apresentado como um espelho distorcido da vida terrestre.

No trono que domina o painel está Satanás, trajando um cocar de plumas e túnica decorada que evocam o que então se conhecia do Brasil — ou seja, o “Novo Mundo”. Essa alusão sugere que o pintor intencionava inserir os horrores do inferno em conexão com territórios além da Europa, que eram cada vez mais visíveis no imaginário português do início do século 16.

Pintura do inferno

As figuras demoníacas combinam traços africanos, indígenas das Caraíbas e características intersexo, borrando as fronteiras entre humano e monstruoso, entre o Ocidente e o “outro”. Por exemplo, um demônio de tons escuros e cabeça tonsurada — lembrando a fisionomia de monges — aparece com seios e pênis visíveis, desafiando convenções de gênero.

Há ainda referências materiais que ligam o tema à expansão ultramarina: moedas de ouro, possivelmente cruzados portugueses, estão sendo forçadas à boca de um pecador guloso; um chifre de marfim (olifante) em poder de Satanás remete a trocas diplomáticas e ao tráfico de marfim da África para Portugal; objetos de plumas que acompanham demônios remetem a artefatos indígenas levados para Lisboa.

Dessa forma, a pintura opera como advertência simbólica: não apenas contra os pecados individuais tradicionais — vaidade, avareza, gula, luxúria — mas também contra a ganância comercial europeia e seus efeitos espirituais. O sofrimento no inferno não é apresentado apenas como consequência de atos pessoais, mas também como repercussão de uma economia global emergente, marcada pelo tráfico, pela exploração e pelo encontro com povos considerados “estranhos”.

Inferno 2
Satanás em seu trono no topo da pintura – domínio público

Historicamente, a obra surge num contexto em que Portugal começa a navegar para a costa ocidental da África, e a trazer produtos exóticos, marfim, artefatos indígenas e pessoas para a Europa. Combina-se à pintura o medo europeu dos monstros e “povos maravilhosos” que apareciam nos mapas medievais e renascentistas para regiões além do Mediterrâneo. A presença de figuras híbridas reforça essa ideia: o desenvolvimento do ser monstruoso ocorria tanto “lá fora” quanto internamente.

Inferno: um alerta social

Para além do aspecto artístico, a peça abre uma via heurística para entender como as artes visuais do início do século 16 lidavam com a alteridade, o comércio ultramarino e o medo da “forasteiro”. O demônio com plumas torna-se símbolo de alteridade, de exotismo, mas também de culpabilização: a expansão ultramarina, embora glorificada, é apresentada sob o prisma do pecado e do castigo.

Essa leitura abre uma porta para a semiótica: os signos do “outro” — plumas, peles, moedas, sexo ambíguo, seres híbridos — articulam-se numa narrativa visual em que o inferno é um espaço onde o estrangeiro, o marginal, o híbrido, se torna castigado. A pintura transforma-se em dispositivo simbólico que vincula alteridade e punição, comércio e condenação, expansão e deterioração moral.

Em resumo, a obra “Inferno” é muito mais que um quadro de horror: é um comentário visual sobre o mundo em transformação nos inícios das grandes navegações. Através da combinação entre iconografia medieval (pecados mortais, demônios) e sinais do Novo Mundo, ela evidencia que o pavor europeu em relação ao “outro” e à riqueza fácil estava no cerne de como se compreendia o pecado, o juízo e o destino final.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.