Sedan Wangong: A cadeira que demorou 10 mil horas para ser feita
Criada em Ningbo entre o fim da dinastia Qing e o início da República, a cadeira de noiva Wangong se tornou símbolo máximo de prestígio

A cadeira sedan Wangong, também chamada de liteira nupcial de Ningbo, é considerada a liteira de casamento mais luxuosa já produzida na China. Criada entre o fim da dinastia Qing (1644 – 1911) e o início da República da China (1912 – 1949), ela impressiona pelas dimensões e pela exuberância: são 275 cm de altura, 150 cm de comprimento e 90 cm de largura, com cerca de 200 kg. Para carregá-la, eram necessários oito homens.
O artefato é feito de madeira nobre e inteiramente ornamentado com laca vermelha, folhas de ouro — cerca de 5 quilos de ouro puro —, entalhes delicados e centenas de figuras esculpidas. De longe, parece um palácio imperial em miniatura.
A liteira é conhecida como wang gong jiao, expressão que remete às 10 mil horas de trabalho necessárias para concluí-la. Construída com a técnica tradicional de espiga e rasgo, não possui um único prego ou rebite. Cada peça se encaixa com precisão absoluta, a ponto de apenas um mestre artesão conseguir desmontá-la e montá-la novamente.
Seu interior e exterior apresentam uma profusão de detalhes: 250 estatuetas humanas e míticas, dragões chineses, fênix, pegas, romãs, flores e cenas teatrais. Os entalhes ilustram temas auspiciosos, como a bênção de divindades, histórias clássicas e desejos de prosperidade para a nova família.
Quando a liteira se movia pelas ruas, espectadores viam apenas um deslumbrante cortejo régio, iluminado por lanternas palacianas e colorido por vitrais e bordados.
Símbolos e Histórias
Entre as figuras, uma das mais marcantes é o qilin com um menino, símbolo da chegada de uma criança talentosa — uma referência à lenda de Confúcio. Outra figura frequente é Kui Xin, espírito associado à sabedoria e ao sucesso acadêmico, segurando uma caneta que “abençoaria” os futuros filhos da noiva.
A presença de dragões e fênix — antes restrita às famílias imperiais — remete a um episódio lendário da dinastia Song. Um príncipe refugiado em Ningbo teria sido salvo por uma jovem local. Como agradecimento, ele concedeu às noivas da região o direito de receber honras semelhantes às das rainhas nos casamentos. Assim, liteiras majestosas passaram a simbolizar status, proteção e boa fortuna.
No início do século 20, a economia próspera de Ningbo e a força dos clãs familiares estimularam cerimônias grandiosas. Empresas especializadas passaram a alugar liteiras nupciais, como ocorre hoje com carros de luxo para casamentos.
Foi nesse cenário que o empresário Zhu Chuanlai decidiu criar a liteira mais extraordinária já vista. Ele empregou mais de uma dúzia de mestres artesãos e trabalhou por mais de uma década, enfrentando inclusive crises financeiras.
A reviravolta veio quando Yu Chaqing, um influente magnata conhecido tanto por suas controvérsias quanto por seu patriotismo, alugou a liteira para o casamento da filha.
Durante a cerimônia, a noiva ficou tão encantada com o veículo que atrasou a própria entrada para contemplar os detalhes. O evento se tornou um fenômeno social, consolidando a Wangong como a “liteira número 1 do mundo”.
Símbolo eterno
Hoje, a liteira é preservada como uma obra-prima da escultura em madeira vermelha e dourada (zhujin mudiao). Ela combina escultura, relevo, entalhe vazado, bordados e vitral, formando uma síntese espetacular da estética chinesa tradicional.
A peça pode ser vista no Museu Provincial de Zhejiang, onde continua a inspirar designers, historiadores e amantes da cultura. Seu esplendor, mesmo após mais de um século, permanece intacto — um testemunho da habilidade, da dedicação e da sensibilidade artística dos artesãos de Ningbo.
A liteira Wangong não é apenas um objeto de casamento. É um monumento à memória, ao trabalho manual e ao imaginário simbólico que moldou gerações.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli