Múmia que pisca? O mistério de Rosalia Lombardo explicado
Múmia de garotinha que morreu em 1920, vítima da Gripe Espanhola, impressiona por seu estado de preservação — e por supostamente abrir e fechar os olhos

Uma garotinha chamada Rosalia Lombardo repousa tranquilamente nas profundezas das catacumbas dos Capuchinhos, em Palermo, na Sicília. A pequena morreu em 1920, vítima de pneumonia associada à Gripe Espanhola, poucos dias antes de completar dois anos de idade. Diante da perda devastadora, seu pai tomou uma decisão incomum: solicitou ao embalsamador e taxidermista siciliano Alfredo Salafia que preservasse o corpo da filha para sempre. A história resultaria em um dos casos de mumificação mais extraordinários já registrados.
A técnica foi tão bem sucedida que, mais de um século depois, o corpo de Rosalia ainda impressiona pela aparência quase intacta. A menina parece apenas adormecida em seu pequeno caixão com tampa de vidro. Sua pele mantém um aspecto suave, os cabelos loiros continuam cuidadosamente arrumados com um laço e seus traços delicados permanecem surpreendentemente preservados. De acordo com o portal All That’s Interesting, o detalhe mais perturbador, no entanto, está em seus olhos: sob as pálpebras entreabertas, ainda é possível ver suas íris azuladas. Essa característica deu origem a uma lenda persistente, que diz que Rosalia seria a “múmia piscante”, capaz de abrir e fechar os olhos ao longo do dia.
O fenômeno explicado
Ao longo das décadas, visitantes das catacumbas relataram ter testemunhado esse suposto movimento ocular. A fama cresceu ainda mais com a circulação de vídeos em time-lapse que pareciam mostrar variações na abertura das pálpebras da menina. O fenômeno, no entanto, possui uma explicação científica. Em 2009, o paleopatologista italiano Dario Piombino-Mascali desmistificou a ideia de que os olhos da criança se moviam. Segundo ele, trata-se de uma ilusão de óptica causada pela incidência variável da luz natural ao longo do dia. Como as pálpebras nunca estiveram completamente fechadas, mudanças na iluminação fazem com que a visibilidade dos olhos pareça variar, criando a impressão de movimento.
Além de esclarecer o mito, Piombino-Mascali também conseguiu desvendar o segredo por trás da extraordinária preservação de Rosalia. Durante décadas, a fórmula utilizada por Salafia permaneceu desconhecida, já que o embalsamador levou o método consigo ao morrer, em 1933. A resposta veio quando o pesquisador localizou documentos pessoais do especialista, incluindo um manuscrito detalhando os compostos químicos utilizados no processo. A mistura incluía formalina, sais de zinco, álcool, ácido salicílico e glicerina, uma combinação que revelou um conhecimento técnico avançado para a época.
Cada um desses elementos desempenhou um papel específico. A formalina eliminava bactérias, impedindo a decomposição; o álcool contribuía para a desidratação do corpo, potencializada pelo clima seco das catacumbas; a glicerina evitava o ressecamento excessivo dos tecidos; e o ácido salicílico protegia contra fungos. No entanto, o componente mais decisivo foi o zinco. Esse elemento, hoje não utilizado em embalsamamentos, foi responsável por conferir rigidez ao corpo, praticamente “petrificando” os tecidos.
Um procedimento simples
O procedimento em si era relativamente simples e consistia em uma única injeção, sem necessidade de drenagem ou manipulações invasivas. Ainda assim, o efeito alcançado foi tão eficaz que Rosalia se tornou um caso único.
Com o passar do tempo, a menina ficou conhecida como a “Bela Adormecida de Palermo” e a “múmia mais bonita do mundo”. Ela foi uma das últimas pessoas a serem sepultadas nas catacumbas antes de seu fechamento para novos enterros, o que contribuiu ainda mais para sua notoriedade. Sua história atrai milhares de visitantes todos os anos, muitos dos quais ainda chegam influenciados pela lenda do supostos olhos que se abrem.
Mais recentemente, para preservar o corpo diante da exposição constante, Rosalia foi transferida para uma vitrine moderna preenchida com nitrogênio, que reduz a ação de oxigênio, luz e microrganismos.