Mistérios de Elêusis: os antigos ritos gregos que permanecem desconhecidos até os dias atuais
Antigos ritos gregos que tinham início em Atenas e terminavam na cidade de Elêusis reuniam milhares de participantes a cada outono

Floresceu, na Grécia Antiga, uma grande variedade de mitos, templos e deuses. Entre os rituais mais enigmáticos praticados por seus habitantes estavam os Mistérios Eleusinos, que eram anuais e duravam nove dias.
O processo tinha início em Atenas e terminava na cidade de Elêusis, reunindo milhares de participantes a cada outono. Durante esse período, os iniciados jejuavam, faziam sacrifícios, percorriam uma procissão de cerca de 14 milhas e consumiam uma bebida enigmática chamada kykeon, que possivelmente possuía propriedades alucinógenas.
Todos esses detalhes eram muito intrigantes, mas o ponto culminante ocorria no Telesterion, um santuário cujo conteúdo ritual era mantido em absoluto sigilo. Como destaca o portal All That’s Interesting, revelar o que acontecia ali era considerado crime passível de morte, o que explica por que tantos aspectos dos Mistérios permanecem desconhecidos até hoje.
Mito de Deméter
A origem dos Mistérios Eleusinos está ligada à história de Deméter, deusa grega da agricultura e das colheitas. Considerada uma divindade protetora, ela era responsável pela fertilidade da terra e, consequentemente, pela sobrevivência da humanidade. Sob sua influência, o mundo vivia em um estado contínuo de abundância, como se fosse uma eterna primavera e verão.
Esse equilíbrio foi rompido quando sua filha, Perséfone, foi raptada por Hades, senhor do Submundo. Devastada, Deméter percorreu a Terra por nove dias em busca da filha, enquanto as plantações secavam e a fome começava a assolar os mortais. Sua jornada a levou até Elêusis, nas proximidades do mundo subterrâneo, onde conseguiu apelar a Zeus para intervir.
Antes que Perséfone pudesse retornar definitivamente, porém, Hades a fez consumir sementes de romã, um gesto que a prendeu ao Submundo. Como consequência, ela passou a dividir seu tempo entre os dois mundos. Todos os anos, durante sua permanência ao lado de Hades, Deméter mergulhava em tristeza e abandonava suas funções, fazendo surgir o inverno. Quando Perséfone retornava, a deusa recuperava sua alegria, restaurando a fertilidade da terra e dando origem à primavera e ao verão. Foi justamente essa dinâmica de perda e reencontro, morte e renascimento, que serviu de base simbólica para os Mistérios Eleusinos.

Sobre os rituais
Apesar das muitas lacunas, sabe-se que os rituais incluíam uma fase preparatória na primavera, chamada de “Mistérios Menores”, seguida pela cerimônia principal no mês de Boedromion (entre setembro e outubro).
Um detalhe curioso é que, diferente de outros cultos, esses ritos eram relativamente acessíveis: podiam participar homens, mulheres, crianças e até escravizados, desde que falassem grego e não tivessem cometido assassinato. Como destaca a fonte, grandes figuras históricas, como Sócrates, Platão e até imperadores romanos como Augusto e Adriano, teriam participado dos Mistérios.
A jornada começava em Atenas, com dias de purificação, jejuns e sacrifícios, seguidos por uma procissão ao longo do Caminho Sagrado até Elêusis. Lá, os iniciados passavam por locais simbólicos como o Plutoneion, associado à entrada do Submundo, e consumiam o kykeon antes de entrar no Telesterion.
Dentro desse espaço sagrado, ocorria o ápice do ritual, mas o que exatamente acontecia permanece desconhecido. Três termos antigos oferecem pistas: dromena (coisas feitas), deiknumena (coisas mostradas) e legomena (coisas ditas). Alguns sugerem que algo realmente horrível, como estupro ou assassinato, pode ter ocorrido durante esses rituais.
Nova visão
Independentemente do que acontecia, acredita-se que os participantes saíam dele com uma nova visão sobre a morte, encarando-a não como fim, mas como parte de um ciclo contínuo.
Os Mistérios Eleusinos foram praticados por mais de mil anos, desde cerca de 1500 a.C., até seu declínio no século 4 d.C., quando o imperador romano Teodósio I proibiu cultos pagãos. Pouco depois, cristãos liderados por Alarico, rei dos godos, saquearam e destruíram o santuário.
Hoje em ruínas, o local guarda vestígios desse passado e segue recebendo visitantes curiosos.