Vítor Soares / Bert Trautmann

Bert Trautmann: Da Juventude Hitlerista a disputa de final com o pescoço fraturado

No pós-Guerra, Trautmann mudou sua visão sobre os judeus após se tornar prisioneiro de guerra e usou o futebol para criar laços culturais

O goleiro Bert Trautmann - Getty Images

Certa vez, o lendário goleiro russo Lev Yashin disse: “Só existiram dois goleiros de nível mundial. Um foi Lev Yashin, o outro foi o garoto alemão que jogava em Manchester: Trautmann.”

O Aranha-Negra, como era chamado o arqueiro — considerados por muitos o maior goleiro da história —, referia-se ao alemão Bert Trautmann, que brilhava na Terra da Rainha. 

A carreira de Bert Trautmann possui uma história muito maior além do futebol. Afinal, Trautmann serviu na Luftwaffe antes de se tornar prisioneiro de guerra. Ele também recusou um convite para retornar à Alemanha, para permanecer na Inglaterra, país que se apaixonou. 

Bert ainda teve que enfrentar a reação negativa dos torcedores por sua contratação e, por fim, ganhou uma Copa da Inglaterra mesmo jogando com o pescoço quebrado.

++ O piloto da 2ª Guerra que se tornou um dos maiores técnicos do futebol

Juventude Hitlerista

Nascido em 1923, na cidade de Bremem, Trautmann seguiu os passos que se esperava de toda criança alemã de sua época: ele se tornou membro da Juventude Hitlerista após a ascensão dos nazistas. 

Ele se juntou ao grupo porque, como ele mesmo disse: “Crescendo na Alemanha de Hitler, você não tinha opinião própria”, recorda o Daily Mail. 

Assim, Bert serviu na Luftwaffe como paraquedista e lutou na Frente Oriental. Aos 18 anos, foi enviado para a Ucrânia, onde, ao lado de um amigo, se deparou com um massacre de judeus — algo que o aterrorizou para sempre. 

Claro que me afetou ver aquilo. Se eu fosse um pouco mais velho, provavelmente teria cometido suicídio”, disse ele ao Evening Standard.

Por seus serviços, recebeu cinco medalhas. No final da Segunda Guerra, acabou sendo capturado pelos Aliados e enviado para outro local da Europa. Pensando que seria fuzilado pelos americanos, Bert acabou sendo transferido para um campo de prisioneiros de guerra em Ashton-in-Makerfield, Lancashire.

Foi no local que ele descobriu todas as brutalidades cometidas pelos nazistas. Por lá, lhe contaram sobre os campos de concentração e lhe mostraram um filme sobre Bergen-Belsen. 

Numa entrevista ao The Guardian alguns anos antes de morrer, disse: “O meu primeiro pensamento foi: ‘Como é que os meus compatriotas podem fazer coisas assim?’ Mas o regime de Hitler era um regime totalmente totalitário”. 

Uma nova pessoa

O antissemitismo endêmico na Alemanha acabou sendo erradicado também em Trautmann, que chegou a trabalhar como motorista sob o comando do sargento judeu Hermann Bloch

Com o passar do tempo, Bert desconstruiu a visão sobre os judeus que lhe foi implantada e percebeu que eles eram humanos como qualquer outra pessoa. Logo, a própria comunidade judaica passou a reconhecer a mudança — o que foi crucial para sua carreira. 

Bert e o futebol

Bert Trautmann começou jogando futebol em um time juvenil chamado Blau und Weiss, na Alemanha. Ele, inicialmente, jogava como defensor, mas uma lesão em um jogo o fez trocar de posição e ter que atuar como goleiro. Assim nascia uma lenda das redes. 

O goleiro Bert Trautmann – Getty Images

Mesmo tendo recebido uma oferta de um clube de seu país, ele preferiu ficar na Inglaterra. 

Enquanto jogava futebol, ele também trabalhava na desativação de bombas em Huyton. Nesta mesma época, se transferiu para o amador St Helens Town. Foi lá que conheceu Margaret Friar, filha do secretário do clube. Friar e Trautmann acabariam se casando.

Em campo pelo St Helens Town, Trautmann se tornou uma estrela. Suas atuações lendárias renderam um público recorde de 9.000 pessoas na competição local da copa. 

Os holofotes atraíram a atenção do Manchester City, que fez de tudo para contratar o goleiro que estava causando alvoroço no cenário local em 1949.

A reação negativa

Apesar do entusiasmo dos dirigentes, os torcedores do City ficaram com um pé atrás com a contratação, por conta de Bert ter feito parte da Luftwaffe; e ser especialmente alguém que se encaixava tão visivelmente no modelo ariano de Hitler — de cabelos loiros e olhos azuis. 

No início houve uma tentativa de boicote, com centenas de cartas com reclamações. A considerável comunidade judaica de Manchester também se mobilizou. Certo dia, 25 mil pessoas se reuniram em frente à boate gritando “Nazista” e “Criminoso de guerra” em protesto, recorda o Daily Mail. 

O goleiro Bert Trautmann jogando pelo Manchester City – Getty Images

Mas tudo mudou por conta do Dr. Alexander Altman, rabino comunitário de Manchester — e alguém que teve de fugir da Alemanha nazista em 1938. No jornal Manchester Evening Chronicle, ele escreveu: 

Apesar das terríveis crueldades que sofremos nas mãos dos alemães, não tentaríamos punir um alemão individualmente, que não tem nenhuma ligação com esses crimes, por puro ódio”.

“Se esse jogador de futebol for uma pessoa decente, eu diria que não há mal nenhum nisso. Cada caso deve ser julgado individualmente”.

Posteriormente, o goleiro agradeceu o apoio: “Graças a Altman, depois de um mês tudo foi esquecido”. Sem a intervenção do rabino, o resto de sua história talvez nunca tivesse sido contado.

Ao longo dos anos, ele também se inseria na comunidade judaica e conversava com as pessoas para que elas pudessem entender por que ele havia feito o que fez: “Eu perguntava se, caso estivessem na mesma situação, sob uma ditadura, como teriam reagido? Conversando dessa forma, as pessoas começavam a entender.”

O City e Trautmann 

Jogando pelo lado azul de Manchester, Bert chegou em duas finais consecutivas da Taça de Inglaterra. No primeiro ano, sua inexperiência — sendo o primeiro alemão a jogar uma final da Taça — custou caro. 

Mas em 1956, eles chegaram novamente à final. O City marcou cedo contra o Birmingham. O Birmingham empatou, mas o City marcou duas vezes em dois minutos, abrindo 3 a 1 de vantagem.

Faltando 15 minutos para o apito final, Trautmann mergulhou numa disputa de bola e colidiu com Peter Murphy. Se hoje o futebol moderno permite até cinco alterações, naquela época substituições não eram permitidas. Caso o goleiro optasse por sair, o City teria que jogar com alguém improvisado embaixo das traves e ficaria desfalcado em linha. 

O lance da lesão de Bert Trautmann jogando pelo Manchester City – Getty Images

Mesmo atordoado, Trautmann recebeu tratamento e optou por continuar jogando. Ele fez uma série de defesas heroicas e o City conseguiu segurar o resultado. Quando Trautmann foi receber sua medalha, o Príncipe Philip perguntou: “Por que sua cabeça está torta?”.

No dia seguinte, ele procurou um médico, já que as dores não diminuíam. O especialista disse que não havia nenhum problema. Mas três dias depois, como as dores persistiram, ele marcou outra consulta. Foi então que descobriu-se que ele havia deslocado cinco vértebras. Se a terceira vértebra não tivesse ficado presa contra a segunda, Trautmann poderia ter morrido.

A conquista da FA Cup foi o auge da sua carreira como futebolista. Logo depois, uma tragédia atingiu sua carreira, com seu primogênito, John, morrendo em um acidente de carro alguns meses depois. Ele ainda teve dois filhos com Margaret, mas eles se divorciaram em 1972. 

Bert Trautmann passou os últimos anos de sua vida trabalhando para fortalecer as relações anglo-alemãs por meio do futebol, antes de falecer em julho de 2013.

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!