As Donas do Tempo: Mulheres que a História quis calar

Por trás dos grandes nomes da história brasileira, existiram mulheres que mudaram os rumos do país, mas poucas pessoas ouviram falar delas

Nísia Floresta, Maria Filipa e Eufrásia Teixeira - Domínio Público

Quando pensamos nos marcos da história do Brasil, os nomes que ecoam com facilidade são quase sempre os mesmos: Dom Pedro I, José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Getúlio Vargas. Todos, homens. A versão tradicional da história, ensinada nos livros escolares e perpetuada por décadas, construiu uma narrativa onde as mulheres aparecem como coadjuvantes, se tanto.

No entanto, por trás das decisões políticas, das revoluções, dos movimentos sociais e das transformações culturais, havia mulheres que pensaram, articularam, agiram e transformaram o país. Elas foram líderes comunitárias, intelectuais, estrategistas e militantes, mas quase nunca foram lembradas.

O apagamento dessas figuras não foi acidente: foi consequência de uma historiografia moldada por interesses patriarcais, elitistas.

Neste artigo, resgatamos algumas dessas histórias, fragmentos de uma história maior, que ainda está sendo reconstruída.

Maria Felipa de Oliveira: a guerreira invisível da Independência

Quando a Bahia ainda lutava pela expulsão definitiva das tropas portuguesas, Maria Felipa de Oliveira, uma mulher negra, marisqueira e capoeirista da Ilha de Itaparica, liderou um grupo de quase 40 mulheres, incluindo indígenas e afrodescendentes, na resistência contra os portugueses.

Enquanto os generais traçavam planos em salões, Maria Felipa agia nas margens: organizava emboscadas, incendiava embarcações inimigas e aplicava o que hoje se chama de “tática de guerrilha”. Em um dos episódios mais emblemáticos, seu grupo imobilizou soldados portugueses e os açoitou com urtiga, planta de efeito doloroso, mas não letal, como forma simbólica de resistência.

Representação de Maria Filipa
Representação de Maria Filipa – Filomena Modesto Orge – Arquivo Público do Estado da Bahia

Apesar de sua importância estratégica nas lutas pela independência na Bahia, seu nome foi sistematicamente excluído dos registros oficiais. Somente nas últimas décadas é que sua história começou a ser resgatada por historiadores e movimentos sociais.

Nísia Floresta: a intelectual que ousou sonhar com um Brasil feminista

Antes mesmo da palavra “feminismo” ganhar visibilidade no Brasil, Nísia Floresta Brasileira Augusta já defendia a educação para meninas, o direito das mulheres à autonomia e denunciava a escravidão como uma chaga nacional. Nascida em 1810, no Rio Grande do Norte, ela publicou seu primeiro livro aos 22 anos: Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, onde já propunha igualdade de gênero, em pleno século 19.

Educadora, filósofa e tradutora de autores como Mary Wollstonecraft, ela fundou escolas voltadas para meninas no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, onde ensinava ciência, literatura e línguas, algo revolucionário à época.

Nísia Floresta /Crédito: Luis Carlos Freire via Wikimedia Commons

Apesar de sua produção intelectual ser vasta, Nísia Floresta foi por muito tempo tratada como uma figura “curiosa” ou “excêntrica” pela história oficial. Hoje, é reconhecida como uma das primeiras vozes feministas da América Latina, mas ainda pouco lembrada.

Clélia Angelon: a articuladora silenciosa da República

No processo de transição entre Império e República, a efervescência política tomava os salões da elite carioca. Em um desses salões, na casa de Clélia Angelon, esposa de Quintino Bocaiúva, um dos fundadores da República, importantes decisões políticas eram tomadas.

Mas Clélia era muito mais que uma “anfitriã”. Educada, politizada e influente, ela trocava correspondências com figuras políticas e intelectuais, opinava nas decisões do marido e mediava conflitos entre republicanos. Era, em resumo, uma articuladora política em pleno século 19, sem jamais poder ocupar um cargo público ou publicar textos em seu nome.

Sua atuação, no entanto, foi reduzida ao papel doméstico e ornamental pelas narrativas posteriores. O que se omitiu foi que a Primeira República teve, sim, mulheres na linha de frente, ainda que nos bastidores.

Eufrásia Teixeira: a milionária que financiou a abolição (e foi esquecida por ela)

A abolição da escravatura no Brasil teve muitos rostos, mas quase todos masculinos. Um deles, bastante lembrado, Joaquim Nabuco. O que poucos sabem é que Eufrásia Teixeira Leite, teve um papel fundamental, não apenas como influente figura política da elite, mas como financiadora do movimento abolicionista.

Após herdar uma fortuna da família de barões do café, Eufrásia se estabeleceu em Paris e começou a investir no mercado financeiro europeu. Tornou-se uma das primeiras mulheres brasileiras a operar ativamente no mundo dos negócios internacionais, multiplicando seu patrimônio de forma impressionante.

Eufrásia Teixeira Leite
Eufrásia Teixeira Leite – Domínio Público

Boa parte desses recursos foi usada para financiar a campanha abolicionista liderada por seu irmão. Mas Eufrásia não se limitou a enviar cheques: ela escrevia cartas, sugeria estratégias, acompanhava de perto a política nacional e, anos depois, faria grandes doações a instituições educacionais no Brasil.

Ainda assim, seu nome raramente aparece ao lado dos grandes abolicionistas. O fato de ser mulher, rica e livre não foi suficiente para garantir sua presença nos livros e ter sua história perpetuada.

As heroínas esquecidas da abolição popular

Fora das elites, milhares de mulheres, muitas delas escravas libertas ou nascidas livres, lutaram pela liberdade de suas famílias e comunidades. Atuavam como líderes de quilombos, mensageiras entre grupos abolicionistas, organizadoras de fugas e até compravam cartas de alforria com o que conseguiam em trabalhos informais.

Essas mulheres não deixaram livros nem discursos, mas deixaram marcas. Muitas eram mães que lutavam pela liberdade dos filhos, ou avós que transmitiam oralmente histórias de resistência. A história delas, no entanto, ainda é contada de forma fragmentada ou simplesmente ignorada.

Por que foram apagadas?

O apagamento das mulheres da história brasileira é fruto de um sistema que por séculos excluiu não apenas as mulheres, mas principalmente as que seriam improváveis de ter um lugar na história.

A historiografia oficial ignorou seus papéis por uma razão simples: reconhecer sua importância seria admitir que o poder sempre foi mais difuso e menos masculino, do que se quis mostrar. Além disso, poucas mulheres tinham acesso à escrita, e mesmo as que escreviam frequentemente viam suas obras atribuídas a homens ou ignoradas pelas editoras e academias. O resultado é um país cuja memória oficial é masculina, ainda que a realidade tenha sido bem diferente.

Lembrar é um ato político

O resgate dessas figuras não é apenas um exercício acadêmico ou um tributo tardio. É, sobretudo, um ato político de reparação. Trazer à tona os nomes de Maria Felipa, Nísia Floresta, Clélia Angelon, Eufrásia Teixeira e tantas outras é reconhecer que a história do Brasil também foi feita por mulheres, mesmo quando ninguém quis contar.

Elas existiram. Elas resistiram. E agora, finalmente, podem ser reconhecidas.

Roselle Adriane Soglio. Professora de Direito, Doutora em História da Ciência. Vice- Presidente da ABCCRIM