Onças-pardas evitam cães no interior de São Paulo, diz estudo
Os grandes felinos remanescentes, Onças-pardas, do interior paulista em média levam 74 horas para retornar a regiões em que matilhas passaram

Recentemente, pesquisadores da UNESP decidiram investigar os efeitos da presença de matilhas e cães solitários em áreas de conservação natural do interior de São Paulo. Mais do que cães selvagens ou cães domésticos, a presença das onças-pardas pode ser ameaçada pelos cães rurais de vida livre.
Em passeios em bando e sem tutela, esses cães ultrapassam regiões de preservação natural e alteram o ecossistema do local. Por isso, pesquisadores decidiram instalar 67 armadilhas fotográficas pela Estação Ecológica de Santa Bárbara e na Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara, no interior paulista.
Contudo, as onças-pardas, conhecidas por serem o topo da cadeia alimentar das áreas remanescentes, mostraram um comportamento incomum, elas evitavam o contato com os cães a todo custo. De acordo com o artigo publicado na revista Biological Conservation, o efeito pode ser causado por diversos motivos. Entenda!
As onças-pardas e as matilhas de cães rurais
As armadilhas fotográficas recuperaram mais de 300 imagens dos cães domésticos e quase 200 registros das onças-pardas. De todas essas imagens, 23 são nas mesmas zonas, o que permite comparar as suas atividades.
De acordo com o Jornal da Unesp, esses passeios dos cães domésticos, que tem um lar para comer e dormir ao fim do dia, mas que estão livres para explorar as matas, podem ser responsáveis pela extinção de 11 espécies de vertebrados e representam uma ameaça para outras 188.
Surpreendentemente, as onças, mesmo sendo o topo da cadeia alimentar evitam o contato com os cães. Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp, disse:
Como um amante de grandes felinos, eu achava que a onça parda ia impor respeito e controlar a área. Os cães poderiam ser uma ameaça para animais pequenos, mas quando chegasse um animal maior o cenário ia mudar. Então foi uma surpresa quando rodamos a análise e vimos que as onças demoravam para voltar a uma determinada área depois da passagem dos cães”.
Em suma, as onças-pardas, ou suçuaranas, esperavam 74h para passar no mesmo local, mesmo se ele fizesse parte de uma zona habitual à ela. Conforme Rodolpho, a descoberta é significativa, pois mostra como outros animais podem impactar no ecossistema mesmo sem o confronto direto. Destacou:
A gente costuma imaginar que um problema para a fauna acontece quando existe ataque ou predação. Mas o animal não precisa ser ferido para sofrer consequências. Se ele deixa de usar uma área de boa qualidade, passa a gastar mais energia procurando alimento ou utilizando um ambiente menos adequado, isso também reduz sua qualidade de vida”. […] Nós percebemos que a simples presença do cão faz com que a onça deixe de usar uma área que poderia ser boa para caça e passe a utilizar ambientes menos favoráveis. Esse impacto indireto pode ser tão importante quanto uma interação direta”.
Nesse sentido, os pesquisadores destacam que possivelmente as onças conectam a presença dos cães com a presença humana. Embora haja alguns poucos casos de predação por parte das onças, elas tendem a evitar ambientes com muita influência humana. Assim, pode ser que elas percebam os cães como um indicador de presença humana e alterem sua forma de ocupar o espaço.
Ao mesmo tempo, o comportamento dos cães pode assustar e confundir os felinos. Pois os cães domésticos não aprenderam a temer as onças-pardas. Por consequência, há alguns indícios que regiões que as onças deixam seus odores territoriais, os cães aparecem pouco depois. Vale destacar que ainda que um cão não apresenta problemas para uma onça, vários cães podem tornar o encontro mais arriscado.
Conservação e cuidados
Para além de tornar cães vilões, os cientistas destacam que esse é um problema de tutorado. Faz parte do instinto desses animais explorar os arredores e andar em bando. Mas sem uma criação na selva, esses animais passam a ser intrusos no ecossistema. Assim, oferecendo riscos tanto à selva quanto à cidade. Rodolpho explica:
Esse não é um cachorro que mora na mata. Ele tem uma fonte de alimento e um lugar para voltar. Mas passa o dia explorando, andando por estradas, plantações e fragmentos de vegetação. O problema não é o animal em si, mas o fato de ele circular sem supervisão”.
O trânsito livre entre o ambiente rural e florestal pode ser vetor para doenças silvestres até cães da cidade e de doenças da cidade até a selva. Além disso, é possível que esses animais compitam por alimento com os outros predadores, ainda que sua principal fonte de alimento venha de seus donos.
De acordo com os biólogos, essa ação canina no remanescente, e minúsculo, espaço florestal pode ter alto impacto. Embora a caça humana de onças-pardas tenha diminuído significativamente nos últimos anos, não podemos correr o risco de que a caça canina aumente.
A onça-parda consegue sobreviver em paisagens agrícolas desde que ainda existam fragmentos de vegetação nativa. O problema é que esses fragmentos estão ficando cada vez menores e mais cercados por atividades humanas […] O cenário atual talvez seja mais preocupante a médio e longo prazo. A presença crescente de pessoas, cães, rodovias e a perda de vegetação podem representar uma nova pressão sobre as populações de onça-parda”.
De todo modo, segundo os pesquisadores, para poder evitar esses problemas, uma série de medidas deveriam ser tomadas. Pois só retirar os cães das unidades de conservação não é suficiente. É necessária a castração, identificação eletrônica dos animais, vacinação, educação ambiental e promoção da posse responsável para reduzir o número de cães circulando livremente em ambientes naturais.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli