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Microrganismo se transforma em gigante canibal e devora seus próprios clones

Estudo revela que protista unicelular pode assumir uma forma gigante, caçar indivíduos da própria espécie e depois voltar ao estado normal

Protista Euplotes gigatrox na forma "normal". Em determinadas condições, algumas células se transformam em versões gigantes que passam a caçar indivíduos da própria espécie. - Imagem: Larson et al./PNAS (2026)

Um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) revelou um comportamento surpreendente de um protista unicelular chamado Euplotes gigatrox. Em determinadas condições, uma pequena parcela das células da espécie sofre uma transformação drástica: cresce, muda de formato, altera sua forma de locomoção e passa a caçar e devorar indivíduos geneticamente idênticos.

De acordo com o Olhar Digital, o fenômeno foi observado em populações clonadas mantidas em laboratório. Apesar das análises realizadas pelos pesquisadores, ainda não foi possível determinar o que desencadeia essa transformação. A equipe descartou hipóteses como falta de alimento ou superpopulação, indicando que outros fatores ainda precisam ser investigados para explicar o surgimento da forma canibal.

De consumidor de bactérias a predador

Em seu estado habitual, o Euplotes gigatrox é uma célula pequena e alongada que se alimenta de bactérias. Para capturar esse alimento, utiliza estruturas semelhantes a pequenos pelos, conhecidas como cílios, responsáveis por criar correntes de água que conduzem partículas até a célula.

Embora comportamentos canibalísticos já tenham sido registrados em outras espécies de ciliados, os pesquisadores destacam que a transformação observada no Euplotes gigatrox é especialmente marcante. Sob determinadas condições, algumas células tornam-se verdadeiros “supergigantes”, apresentando comprimento superior ao dobro da forma convencional, além de um corpo mais robusto e estruturas de alimentação ampliadas.

Segundo Patrick Keeling, biólogo celular da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, a diferença entre os dois estágios é impressionante quando observada ao microscópio, principalmente pela capacidade predatória adquirida pelos indivíduos gigantes.

Canibalismo entre clones

Após a transformação, os supergigantes deixam de se alimentar de bactérias e passam a capturar indivíduos menores da própria espécie.

Durante os experimentos, os pesquisadores registraram que essas células conseguiam engolir uma presa a cada dez minutos. Antes de incorporá-las, os supergigantes literalmente passavam por cima das células menores, utilizando sua nova estrutura corporal para consumi-las.

Além das mudanças físicas, a transformação envolve uma profunda reorganização interna. Os cientistas verificaram que mais de 42% dos genes analisados apresentam diferenças na expressão entre a forma convencional e a forma gigante, indicando que o processo é rigidamente controlado em nível molecular.

Vantagens e limitações da forma gigante

Apesar de adquirir a capacidade de consumir presas maiores, tornar-se um supergigante também tem seus custos.

Os pesquisadores observaram que essas células conseguem se deslocar mais rapidamente, porém caminham apenas sobre superfícies e seguem trajetórias circulares. Já as células na forma normal mantêm maior capacidade de nadar por longas distâncias.

Segundo Ben Larson, pesquisador do Rensselaer Polytechnic Institute e coautor do estudo, manter um corpo maior exige um gasto metabólico mais elevado. Em compensação, a possibilidade de ingerir presas maiores pode representar uma vantagem para a reprodução.

Transformação não é permanente

Outro aspecto observado pelos cientistas é que o processo pode ser revertido. Os supergigantes conseguem permanecer nessa forma ao se dividirem em duas células iguais ou retornar ao estado convencional por meio de divisões celulares assimétricas.

Uma única célula gigante pode originar até nove células normais em apenas 24 horas. No entanto, essas células recém-retornadas apresentam menor capacidade de voltar imediatamente ao estágio canibal, sugerindo, segundo a hipótese apresentada pelos autores, a existência de um período de “resfriamento” antes de uma nova transformação.

Os pesquisadores também propõem que apenas uma pequena parcela da população assume a forma gigante por causa de um equilíbrio evolutivo. Como um supergigante não consegue devorar outro supergigante, uma população composta apenas por esses indivíduos rapidamente ficaria sem alimento, tornando essa estratégia inviável.

Embora todas as observações tenham sido realizadas em ambiente controlado, os autores destacam que transformações semelhantes surgiram de forma independente em diferentes grupos de ciliados ao longo da evolução. Para Ben Larson, o estudo demonstra que mesmo organismos unicelulares podem apresentar comportamentos extremamente complexos, incluindo estratégias de caça e locomoção que lembram as observadas em animais.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes