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Projeto quer ‘reviver’ a Ypres medieval; primeiros passos estão completos

Pesquisadores desenterraram mais de 1.000 esqueletos para poder “reviver” a Ypres medieval na Bélgica; projeto já conta com rosto e voz para homem

Imagem de evento cultural que "revive" a Ypres medieval culturalmente
Imagem de evento cultural que "revive" a Ypres medieval culturalmente - Créditos: Getty Images

Pesquisadores da universidade Vrije Universiteit Brussel (VUB), na Bélgica, estão se esforçando para “reviver” a Ypres medieval. A cidade destruída na 1° Guerra Mundial perdeu parte considerável dos seus acervos e bens arqueológicos medievais durante a guerra. Por isso, a nova exposição do Museu Ypres, chamado Wonderland, está mobilizando cientistas de todas áreas.

Conforme o projeto, uma equipe interdisciplinar está possibilitando reconstruir não só como seriam os prédios e localidades, mas também as pessoas. Após mais de 1.000 esqueletos escavados, especialistas conseguiram dar voz e rosto a um habitante anônimo da cidade medieval.

Assim, além de “reviver” a Ypres medieval, o projeto visa reconstruir e ensinar as formas de organização da cidade.

Por que “reviver” a Ypres medieval?

Antes de tudo, é necessário saber que Ypres foi destruída durante a Primeira Guerra Mundial, e junto os arquivos, salões de tecidos e demais itens centenários. Dessa forma, historiadores perderam parte considerável da história da Ypres medieval. Entretanto, os novos projetos de desenvolvimento urbano descobriram 3 sítios arqueológicos, que juntos, contavam com mais de 1.000 esqueletos.

Encontrados nos quadros paroquiais de São Nicolau e São Martinho, restos de pessoas mais nobres preencheram os arquivos, já no cemitério de Hooge Siecken, foram encontrados centenas de leprosos. Professor do VUB, Dr. Bart Lambert (VUB-SHOC), coordenador do componente do VUB da seção histórica, disse:

O que começou como uma necessidade devido à falta de fontes escritas desenvolveu-se em uma vantagem científica. […] Provavelmente não há outro lugar em Flandres onde tanta pesquisa interdisciplinar tenha sido conduzida nesse período quanto em Ypres. Estamos conduzindo investigações quase centenárias de cenas de crimes aqui.”

Conforme a revista Phys, durante o século 13, Ypres foi conhecida por sua indústria de tecidos e chegou a ter cerca de 30.000 habitantes. Mas os restos encontrados revelaram bem mais sobre quem eram esses 30.000 habitantes e sua circulação no mundo medieval.

Para descobrir essas informações, os pesquisadores utilizaram análises avançadas de isótopos. Assim, os resultados apresentaram uma quebra de paradigma. Embora o comércio da região fosse a nível internacional, a grande maioria dos enterrados em Ypres acabou sendo de pessoas que nasceram na região. Já os migrantes de longas distâncias eram raros.

Mas o que mais surpreendeu os cientistas é que a migração regional era de igual proporção entre homens e mulheres, o que contraria a imagem clássica medieval sobre o sedentarismo.

“Reviver” o passado: História e memória

No entanto, o que mais chama a atenção dos visitantes é o esqueleto de um homem do século 11 (antes da primeira menção registrada ao nome Ypres), enterrado em uma prestigiada tumba de arenito de ferro.

Pois uma equipe de osteólogos, liderada por Barbara Veselka, realizou pesquisas osteológicas sobre os restos esqueléticos em colaboração com o Departamento de Anatomia e Traumatologia da UZ Bruxelas. De acordo com Martin Jacobs, um dos pesquisadores:

A pesquisa revelou que o homem sofria da síndrome do cavaleiro, um crescimento ósseo específico no osso do quadril causado pela cavalgada intensiva. […] Isso aponta para uma elite local inicial. Ao mesmo tempo, os isótopos mostram que ele cresceu localmente: Ele era, portanto, provavelmente um verdadeiro nascido, líder ‘self-made’ de Ypres.”

Além disso, também foram encontradas marcas nos dentes dos trabalhadores enterrados no século 13. De acordo com os cientistas, seriam sinais do trabalho diário e repetitivo nas indústrias de fiação e tecelagem.

Fato é que o projeto atual da cidade da Bélgica é muito mais que aumentar o acervo histórico. Na verdade, a ideia é “reviver” a Ypres medieval e mostrar para os visitantes e moradores locais as diferentes formas que a antiga cidade já teve. Para tal, é necessário uma intensa pesquisa com diversos especialistas na equipe.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: