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Manuscrito de Alan Turing revela história de amor entre dois homens

'Pryce's Buoy' foi encontrado em Cambridge e mostra como o gênio usou a escrita para lidar com a perseguição e a injustiça sofrida na vida real

Rascunho de seis páginas de "Pryce's Buoy", conto de Alan Turing baseado em suas próprias experiências e redescoberto em um arquivo do King’s College, em Cambridge - Foto: Domínio Público e King’s College, Cambridge

Mundialmente reconhecido como o pai da computação moderna e por decifrar códigos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, Alan Turing é frequentemente reduzido pela história a uma figura puramente lógica e solitária. No entanto, a recente descoberta de um manuscrito de seis páginas nos arquivos do King’s College, em Cambridge, revela um lado profundamente humano que desafia esse estereótipo

Intitulada ‘Pryce’s Buoy’, a obra é um conto inacabado sobre o encontro de dois homens, funcionando como um processamento direto da perseguição estatal que o cientista sofreu em 1951, quando foi preso e condenado por “indecência grave” devido à sua homossexualidade.

Espelho da realidade 

A narrativa centra-se no encontro entre Alec Pryce, um cientista famoso por uma invenção técnica, e Ron Miller, um homem da classe trabalhadora. Conforme informações do veículo Popular Science, é evidente que o protagonista Pryce funciona como um substituto para o próprio Alan Turing, tornando a trama uma reconstrução dos eventos reais que marcaram sua vida. 

O texto oferece uma janela para a mente de um homem que, aos 41 anos, ainda buscava sentido para si mesmo em um mundo que restringia sua existência.

Desejo e hesitação 

A história se passa em um parque, pouco antes do Natal, onde os dois personagens avaliam silenciosamente as intenções um do outro enquanto sentam em um banco. No rascunho, Miller questiona se os olhares de Pryce seriam um erro, concluindo que o cientista estava “apenas um pouco tímido”, enquanto Pryce reflete que o rapaz possuía um certo apelo, notando que:

Mendigos não poderiam escolher”. 

Páginas 5 e 6 de “Pryce’s Buoy”, conto inacabado e inédito de Alan Turing que retrata uma história de amor entre dois homens – Foto: King’s College, Cambridge

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para a professora de literatura de Cambridge, Sarah Dillon, que transcreveu o manuscrito, Turing capturou com maestria as hesitações de um potencial encontro. Em comunicado oficial da universidade, a especialista afirmou que:

O conto revela um homem muito diferente: brincalhão, engraçado, atrevido, literário e alguém que realmente gostava de sexo”.

Influências e silêncio 

A pesquisa de Sarah Dillon também revelou que Turing buscou inspiração no autor Angus Wilson, especificamente no livro Hemlock and After, publicado em 1952. Turing chegou a replicar a ordem dos eventos e o vocabulário de Wilson, o que a especialista descreveu no comunicado institucional como um “andaime” necessário para enfrentar o desafio de escrever de forma criativa

Infelizmente, o rascunho termina de forma abrupta com a frase “Ron não faria”, possivelmente devido à censura posterior de sua família. Mesmo incompleto, o texto prova que a literatura foi uma ferramenta de libertação, permitindo a Alan Turing expressar a humanidade que a sociedade da época tentava apagar.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli

Meu propósito é dar voz a narrativas.