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Conheça os Homens da Lama de Asaro, a tradição mais intrigante de Papua-Nova Guiné

Com máscaras grotescas e corpos cobertos de argila, a tribo de Papua-Nova Guiné transformou um disfarce de guerra em um dos maiores espetáculos culturais do mundo

Homens da Lama de Asaro - Getty Images

A Papua-Nova Guiné é um verdadeiro mosaico cultural e étnico. O país insular da Oceania abriga quase mil grupos étnicos e mais de 850 línguas diferentes — cada qual com sua própria história, visão de mundo e tradições centenárias.

Entre essas comunidades estão os “temíveis” Homens da Lama de Asaro. Com uma estética expressiva e intimidadora, eles cobrem o corpo com lama cinza e argila branca, usam garras longas de bambu nas mãos e vestem máscaras pesadas com olhos esbugalhados, dentes de porco e chifres.

Hoje, eles são um dos maiores símbolos culturais do país. A imagem desses guerreiros ganhou o mundo e atrai a atenção nas redes sociais, tornando-se o motivo pelo qual milhares de turistas viajam à região em busca de uma experiência única.

Mas quem são realmente os Homens da Lama de Asaro e qual é a verdadeira história por trás desse costume fascinante?

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A lenda das margens do rio Asaro

A narrativa popular mais difundida conta que os moradores do vale de Asaro foram atacados e derrotados por uma tribo rival. Forçados a fugir para salvar suas vidas, eles teriam buscado refúgio nas margens do rio Asaro, cuja terra era rica em argila clara.

Homens da Lama de Asaro – Getty Images

Ao tentarem escapar ao anoitecer ou se defender de um novo confronto, eles emergiram do leito do rio completamente cobertos por uma espessa camada de lama cinzenta e argila.

Quando os invasores avistaram aquelas figuras pálidas surgindo na penumbra, entraram em pânico. Eles acreditaram que não se tratava de homens vivos, mas sim dos espíritos dos mortos querendo vingança. Assustados, os inimigos fugiram. A partir desse episódio, a tribo teria adotado a pintura e as máscaras para afugentar ameaças.

O papel da máscara nos rituais e na espiritualidade

Conforme apontam registros sobre o grupo, a tradição Asaro relaciona a argila do rio a um elo entre o mundo físico e o espiritual. A cor pálida simula a estética dos espíritos ancestrais (conhecidos localmente por termos como holosa).

As ricas encenações servem para invocar a proteção e a força dos ancestrais em momentos de transição ou celebração da comunidade.

Essas performances dramáticas e rituais vêm sendo transmitidas ao longo das décadas, perpetuando a identidade, as crenças e a memória do povo.

O surgimento do espetáculo e a transformação nos dias atuais

No ano de 1957, a comissão organizadora da feira inaugural de agricultura das Terras Altas Orientais (o famoso Goroka Show), na Papua-Nova Guiné, solicitou a Ruipo Okoroho, liderança do povo Asaro, a exibição de uma manifestação cultural de seu grupo. Resgatando memórias sobre os antigos trajes de disfarce chamados girituwai, Okoroho reuniu-se com as autoridades locais e optou por recriar essa tradição — contudo, aplicando-lhe alterações.

Ao invés das estruturas rudimentares confeccionadas com bambu e sacaria no passado, o grupo produziu cabeçotas complexas de argila com feições intimidadoras. Adicionalmente, besuntaram a própria pele com lama clara.

Ao realizarem a exibição no evento agrícola da região, os espectadores ficaram fascinados na hora. Conforme o tempo passou, as exibições ganharam proporções maiores, utilizando peças faciais ainda mais assustadoras e criando uma encenação dramática e ritualística para harmonizar com a vestimenta. Esses dançarinos fantasiados ganharam a alcunha de holosa, termo traduzido como “espíritos” ou “fantasmas”.

Homens da Lama de Asaro – Getty Images

A partir dos anos 1950, as exibições dos holosa ganharam maior complexidade, transformando sua estética para encantar a plateia e os visitantes externos. Se no início as peças utilizavam bambu na confecção, com o tempo os dançarinos adotaram fibra de bananeira e, finalmente, barro, adaptação atribuída ao gosto dos espectadores e aos insumos disponíveis no território. Nota-se ainda que as feições das peças se transformaram, deixando o ar puramente agressivo para expressar sentimentos variados, como a alegria.

Diante disso, de qual lugar veio o relato clássico dos combatentes Asaro lambuzados de barro à espera de inimigos perto da água? Não há certeza absoluta. É possível que seja a fusão de um fato histórico com floreios posteriores, ou unicamente uma lenda consolidada com o tempo devido às constantes conversas entre a comunidade, autores e viajantes.

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!