Tempestades de 80 milhões de anos preservaram fósseis de dinossauros
Pesquisa conclui que chuvas de monção e ciclones tropicais soterraram rapidamente dinossauros e plantas em uma planície costeira

Há cerca de 80 milhões de anos, uma faixa de litoral tropical localizada onde hoje fica o nordeste da Itália era constantemente atingida por chuvas de monção e ciclones tropicais. Segundo um novo estudo, esses eventos extremos foram decisivos para preservar um dos mais importantes sítios fossilíferos da Europa, permitindo que cientistas reconstruíssem em detalhes como era o ambiente durante os últimos milhões de anos da era dos dinossauros.
A pesquisa, publicada na revista científica Global and Planetary Change, analisou o sítio paleontológico de Villaggio del Pescatore, próximo à cidade de Trieste. O local é considerado único na região do Mediterrâneo por preservar fósseis de grandes animais terrestres, incluindo o dinossauro herbívoro Tethyshadros insularis, além de crocodilianos, peixes, camarões e restos de plantas.
O trabalho foi liderado por pesquisadores da Universidade de Bolonha e reuniu especialistas em paleontologia, geologia e física para esclarecer como esse extraordinário conjunto de fósseis conseguiu permanecer preservado por dezenas de milhões de anos.
Fósseis soterrados de dinossauros
Durante décadas, acreditava-se que os sedimentos do local haviam sido depositados lentamente em um lago tranquilo ou em uma depressão geológica. No entanto, as novas análises mostram um cenário bastante diferente. Os cientistas concluíram que a região correspondia a uma planície costeira sujeita às marés e frequentemente castigada por tempestades tropicais.
Para chegar a essa conclusão, a equipe utilizou imagens de alta resolução produzidas pelo síncrotron Elettra, em Trieste. O equipamento acelera elétrons a velocidades próximas à da luz para gerar raios X extremamente potentes, capazes de revelar detalhes microscópicos escondidos no interior das rochas e dos fósseis.

As análises mostraram que as finas camadas claras e escuras presentes nas rochas não representavam anos de deposição, como se imaginava anteriormente. Na realidade, elas foram formadas pelas marés diárias, registrando dois ciclos completos por dia.
A descoberta permitiu aos pesquisadores contar essas camadas com precisão e calcular que toda a sequência fossilífera foi formada em aproximadamente 40 anos — um intervalo extremamente curto do ponto de vista geológico. Em comparação, a maioria dos grandes depósitos de fósseis reúne organismos acumulados ao longo de milhares ou até milhões de anos.
Modelos climáticos desenvolvidos pela equipe indicam que, naquele período, a região estava localizada em torno de 29 graus de latitude norte, dentro de uma intensa faixa de monções tropicais. O clima era marcado por verões muito chuvosos e ciclones frequentes, favorecidos pelas elevadas concentrações de dióxido de carbono na atmosfera durante o Cretáceo.
As tempestades transportavam lama, sedimentos, troncos, vegetação e carcaças de animais (incluindo dinossauros) para uma planície sujeita às marés. Ali, microrganismos formavam uma espécie de película sobre os sedimentos, estabilizando rapidamente o material e impedindo que os restos orgânicos fossem destruídos pela decomposição ou consumidos por predadores.
Essa rápida fossilização explica o excepcional estado de conservação encontrado no sítio. Um dos exemplares de Tethyshadros insularis, por exemplo, preserva até marcas de tecidos moles, algo extremamente raro no registro fóssil. Outro apresenta ossos rachados pela exposição ao sol antes de ser arrastado por uma enchente e soterrado.
Além do dinossauro, os pesquisadores identificaram fósseis do crocodiliano Acynodon adriaticus, peixes, camarões e diversas espécies vegetais que viviam naquele antigo ecossistema costeiro.
Segundo os autores, a combinação entre enchentes provocadas pelas monções, deposição controlada pelas marés e rápida estabilização dos sedimentos por microrganismos constitui uma “receita” ideal para formar depósitos fossilíferos excepcionalmente preservados em ambientes tropicais, onde normalmente a matéria orgânica se degrada rapidamente.