Estátua de 2.000 anos pode ser tesouro perdido de Cícero
Descoberta de estátua de bacante na Itália traz evidências inéditas sobre o mestre grego Evandro e o acervo do lendário orador romano

Uma descoberta arqueológica na antiga cidade de Tusculum, na Itália, promete encerrar um mistério que atravessa milênios e conecta a arte grega ao coração da política romana. Pesquisadores identificaram uma estátua de mármore que pode ter pertencido à coleção pessoal de Cícero, um dos mais influentes oradores e estadistas da Roma Antiga.
A peça, que retrata uma bacante – seguidora do deus do vinho, Baco -, foi encontrada em escavações lideradas pela Escola Espanhola de História e Arqueologia em Roma. Se a autoria for confirmada, esta será a primeira obra física sobrevivente de Evandro, um escultor grego cujas criações eram conhecidas apenas por meio de textos literários clássicos.
Estátua em mármore
A escultura, datada de meados do século I a.C., possui cerca de 1,5 metro de altura e, embora esteja sem a cabeça, impressiona pela sofisticação técnica. Ela foi esculpida em um único bloco de mármore pentélico, material nobre extraído da Grécia e reservado para as obras mais prestigiadas da época.
Um detalhe fundamental que chamou a atenção dos especialistas foi a presença de uma nebris, uma pele de cervo que cobre o peito da figura, o que a diferencia de representações comuns de outras divindades. Conforme o portal Archaeology News, a peça estava enterrada sob camadas medievais dentro das ruínas de banhos públicos que serviram aos imperadores Calígula e Adriano.
Cartas revelam queixas
A conexão com Cícero não é uma mera suposição, mas baseia-se em documentos históricos: em cartas datadas de 46 a.C., o estadista reclamou com seu amigo Galo sobre a compra de estátuas de bacantes para sua vila em Tusculum. Na correspondência, Cícero demonstrava insatisfação com o preço elevado e argumentava que o tema das esculturas não harmonizava com o ambiente intelectual de sua biblioteca.
“A qualidade sugere que o escultor produziu um modelo original, e não uma cópia posterior feita em oficina”, afirmam os pesquisadores David Hernández Castro e Antonio Pizzo, em estudo publicado pela revista acadêmica Pyrenae.
Após o assassinato de Cícero em 43 a.C., seus bens foram confiscados, o que explica como a peça pode ter acabado em um complexo de banhos públicos séculos mais tarde.
Mestre grego redescoberto
Além do valor histórico ligado ao proprietário, a estátua é um elo perdido para a história da arte. Evandro é citado por escritores antigos, como Plínio, o Velho, como um mestre que trabalhou para figuras poderosas, incluindo Marco Antônio e o imperador Augusto. Acredita-se que ele operava em Puteoli, um porto movimentado perto de Nápoles, onde Cícero costumava negociar obras de arte.
A identificação final ainda depende de análises comparativas com moldes de oficinas da época, mas os indícios são robustos. Segundo Antonio Pizzo, “mesmo que a identificação ainda não tenha sido comprovada, as evidências apontam para uma forte possibilidade de que esta figura tenha pertencido ao acervo de Cícero”.
*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes