Notícias / Arqueologia

Caverna australiana guarda 25 mil anos de curas, rituais e maldições

Descoberta de gramas queimadas na Caverna de Cloggs confirma tradições milenares do povo aborígene GunaiKurnai mantidas por gerações na região

Tio Russell Mullett, ancião GunaiKurnai, na entrada da Caverna de Cloggs, na Austrália - Foto: Jessica Shapiro/GunaiKurnai Land and Waters Corporation

Pesquisadores encontraram evidências de que a Caverna de Cloggs, localizada em um penhasco no sul da Austrália, tem sido um centro de rituais espirituais e práticas de cura por pelo menos 25 mil anos. A descoberta, publicada na revista Frontiers in Environmental Archaeology e difundida pela Popular Science, revela que camadas de grama queimada preservadas no solo narram a história contínua de líderes espirituais conhecidos como mulla-mullung

Estes indivíduos, pertencentes à nação aborígene GunaiKurnai, utilizavam o espaço sagrado para cerimônias que uniam medicina tradicional e práticas místicas.

Tradição de milênios

A entrada da caverna de calcário, próxima à cidade de Buchan, em Victoria, assemelha-se à porta de uma catedral e exibe marcas visíveis de ocupação humana milenar. O teto do local encontra-se enegrecido pela fumaça de inúmeras fogueiras acesas ao longo de gerações. 

Conforme as tradições orais e relatórios etnográficos do século 19, os mulla-mullung, respeitados como Antigos Ancestrais, recorriam à caverna para realizar rituais de proteção, cura e até maldições. A persistência dessas práticas demonstra uma conexão ininterrupta entre a comunidade e o território, resistindo ao tempo e às transformações geológicas.

Segredos nas cinzas

A confirmação científica da longevidade dessas visitas veio através da análise de fitólitos, que são restos microscópicos de sílica dos tecidos vegetais que permanecem no solo após a decomposição da planta. Como a luz solar não penetra nas profundezas da Caverna de Cloggs, a presença de fitólitos queimados indica que o material foi transportado deliberadamente por seres humanos

A arqueóloga da Universidade Nacional Australiana, Elle Grono, explicou o processo de descoberta ao afirmar que “Aqui mostramos que os Antigos Ancestrais selecionavam gramas inteiras da paisagem e as levavam para a Caverna de Cloggs para espalhá-las em camadas finas e queimar”. Essa queima intencional acumulou 73 camadas de cinzas ricas em vegetação de climas variados ao longo dos séculos.

À esquerda, imagens microscópicas de fitólitos de grama queimada encontrados na Caverna de Cloggs. À direita, uma pedra ereta de cerca de 2 mil anos escavada no local, cercada por camadas de cinzas onde os vestígios foram identificados. Fotos: Grono/GunaiKurnai Land and Waters Aboriginal Corporation et al.; Bruno David/GunaiKurnai Land and Waters Corporation.

Conexão com espíritos

Durante as escavações, realizadas com o apoio do ancião Uncle Russell Mullett, os arqueólogos também desenterraram uma pedra vertical de aproximadamente trinta centímetros, possivelmente utilizada em contextos cerimoniais. O objeto estava cercado por cinzas de plantas datadas de períodos entre 4.400 e 1.600 anos atrás, embora outras evidências recuem o uso da caverna a 25 milênios. 

O arqueólogo da Universidade Monash, Bruno David, ressaltou o significado dessas cinzas para a cultura local, declarando que:

 “A queima é consistente com as práticas tradicionais GunaiKurnai de usar cinzas para realizar magia e rituais, e também para rastrear os passos de qualquer um que entrasse, incluindo seres espirituais”.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes

Meu propósito é dar voz a narrativas.