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Da resistência ao nazismo à reconstrução da França

Charles de Gaulle reuniu apoio da resistência e se tornou o principal símbolo da reconstrução política e militar da França

França Aliados capa
Oficiais Aliados reunidos em Paris após a libertação da França - Getty Images

Durante a Segunda Guerra Mundial, a França viveu um dos períodos mais conturbados de sua história. A rápida derrota diante da invasão alemã, em 1940, fragmentou o país política e territorialmente, dando origem a diferentes administrações que disputavam a legitimidade de representar a nação. Enquanto parte do território permaneceu sob ocupação direta da Alemanha e outra foi controlada pelo regime colaboracionista de Vichy, surgiu, no exílio, um movimento que se recusava a aceitar a capitulação: a França Livre, liderada pelo general Charles de Gaulle.

Logo após a assinatura do armistício entre franceses e alemães, De Gaulle rompeu com o governo que aceitara a derrota e partiu para Londres. De lá, em 18 de junho de 1940, fez um pronunciamento transmitido pela BBC conclamando os franceses a continuarem a luta contra o nazismo. O chamado “Apelo de 18 de Junho” se transformou em um marco da resistência francesa e consolidou a imagem do militar como principal porta-voz daqueles que rejeitavam a ocupação alemã.

Na avaliação de De Gaulle, a rendição não era inevitável. O general acreditava que a França ainda possuía condições de prosseguir na guerra ao lado dos Aliados e defendia que a derrota havia sido consequência de erros estratégicos, da falta de liderança e da perda de confiança das autoridades francesas. Mesmo sem um território próprio e contando inicialmente com poucos apoiadores, ele decidiu organizar uma força militar capaz de manter viva a continuidade do Estado francês.

A campanha pela França

A partir do Reino Unido, De Gaulle iniciou um intenso trabalho diplomático para conquistar reconhecimento internacional e reunir militares, civis e representantes das colônias francesas em torno de seu projeto. Aos poucos, diversas possessões ultramarinas aderiram ao movimento, fornecendo soldados, recursos e bases estratégicas que permitiram ampliar a atuação da chamada França Livre.

A presença francesa no Norte da África desempenhou papel decisivo nesse processo. Após campanhas militares conduzidas pelos Aliados, a Argélia foi libertada e passou a servir como sede do governo liderado por De Gaulle. Com uma base territorial consolidada, o movimento abandonou a condição de governo exclusivamente no exílio e adotou o nome de França Combatente, reforçando sua posição como representante legítima da luta contra a ocupação nazista.

Além do apoio britânico, De Gaulle contou com a colaboração da resistência organizada dentro da própria França. Grupos clandestinos atuavam realizando sabotagens, reunindo informações de inteligência e dificultando as operações alemãs. O comandante supremo das forças aliadas na Europa, Dwight D. Eisenhower, chegou a comparar a contribuição desses combatentes ao equivalente de diversas divisões militares, destacando sua importância para o esforço de guerra.

Outro fator relevante foi a mudança de posição de parte das forças ligadas ao governo de Vichy instaladas no Norte da África. Liderados pelo almirante François Darlan, diversos militares romperam com o colaboracionismo e passaram a apoiar os Aliados. Embora Darlan tenha sido posteriormente assassinado, sua adesão facilitou a incorporação dessas tropas ao projeto conduzido por De Gaulle.

Nascido em 1890, Charles de Gaulle já possuía uma longa trajetória militar antes da Segunda Guerra Mundial. Veterano da Primeira Guerra Mundial, passou mais de dois anos como prisioneiro dos alemães, experiência que influenciou profundamente sua visão estratégica. Nas décadas seguintes, dedicou-se ao estudo da história militar, escreveu obras sobre o emprego de forças blindadas e defendeu a modernização do Exército francês, ideias que nem sempre encontraram apoio entre seus superiores.

Fotografia de Charles de Gaulle / Crédito: Marjory Collins/ Biblioteca do Congresso/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Quando a Alemanha invadiu a França, em maio de 1940, De Gaulle foi promovido e assumiu um cargo no governo responsável pela Defesa Nacional. Pouco depois, diante da decisão das autoridades francesas de negociar a rendição, rompeu com o governo e iniciou sua campanha para reorganizar as forças francesas no exterior.

Enquanto fortalecia a França Livre, o general participou das principais campanhas travadas pelos Aliados, especialmente no Norte da África. As tropas sob seu comando estiveram presentes em batalhas importantes, como Bir Hakeim, que se tornou um símbolo da capacidade de resistência das forças francesas mesmo após a queda da França metropolitana.

A resistência e a libertação

A resistência interna também ganhou maior coordenação graças ao trabalho de Jean Moulin, enviado por De Gaulle para unificar os diversos grupos que atuavam clandestinamente no território ocupado. Moulin acabou preso e morreu sob custódia da Gestapo em 1943, tornando-se um dos principais mártires da resistência francesa.

No ano seguinte, após o desembarque aliado na Normandia, as forças da França Livre participaram da libertação do país. Em agosto de 1944, De Gaulle entrou triunfalmente em Paris ao lado das tropas francesas, simbolizando o fim da ocupação alemã na capital e o restabelecimento de um governo nacional.

Após a guerra, o general liderou o governo provisório responsável por reconstruir as instituições francesas. Embora tenha participado da elaboração da Constituição da Quarta República, acabou rompendo com o novo sistema político por considerá-lo incapaz de garantir estabilidade ao país. Anos mais tarde, voltou ao poder durante a crise de 1958, liderou a criação da Quinta República e assumiu a Presidência da França.

Durante seu governo, enfrentou desafios como a independência da Argélia, promoveu a aproximação diplomática com a Alemanha por meio do Tratado do Eliseu e defendeu uma política externa mais independente em relação aos Estados Unidos. Seu mandato terminou em 1969, após a derrota em um referendo sobre reformas administrativas.

Charles de Gaulle morreu em 9 de novembro de 1970, aos 79 anos, vítima de uma hemorragia cerebral. Apesar das controvérsias que marcaram sua carreira política, permanece como uma das figuras mais importantes da história francesa, sendo lembrado pelo papel decisivo na organização da resistência ao nazismo, na reconstrução do Estado francês e na redefinição do lugar da França no cenário internacional após a Segunda Guerra Mundial.


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