T. rex quase completo será vendido e reacende debate entre ciência e colecionadores
Esqueleto de dinossauro encontrado nos Estados Unidos pode se tornar o fóssil mais caro já vendido, mas gera debate científico

Um esqueleto de Tyrannosaurus rex encontrado em uma propriedade particular nos Estados Unidos pode entrar para a história como o fóssil mais caro já vendido em um leilão. Batizado de “Gus”, o espécime será leiloado pela casa Sotheby’s, em Nova York, com uma avaliação que pode chegar a US$ 30 milhões.
O fóssil foi descoberto em uma região considerada um dos principais locais do mundo para encontrar vestígios do famoso predador pré-histórico: a Formação Hell Creek, uma área que se estende por Montana, Wyoming e as Dakotas. O local já revelou outros grandes achados, incluindo Stan, um T. rex quase completo vendido em 2020 por US$ 31,8 milhões.
Agora, Gus pode escrever um novo capítulo na história dos leilões de fósseis. Porém, a venda também reacende um antigo debate entre paleontólogos: até que ponto esqueletos de grande importância científica devem permanecer em coleções privadas?
A descoberta de Gus
O caminho até a descoberta do fóssil começou quando o fazendeiro Gary “Gus” Licking encontrou ao longo dos anos dentes e ossos de dinossauros em sua propriedade, localizada no Condado de Harding, na Dakota do Sul.
A região chamou a atenção do paleontólogo comercial Thomas Heitkamp, fundador da empresa Theropoda Expeditions, especializada em escavações de fósseis em terras particulares. Após conhecer Licking e investigar a área, sua equipe encontrou o esqueleto em 2021.
O proprietário do terreno indicou aproximadamente onde o fóssil poderia estar, mas morreu antes que a escavação fosse concluída e não chegou a ver o espécime totalmente revelado.
Com 11,6 metros de comprimento, 3,8 metros de altura e um crânio de 1,37 metro, Gus está entre os maiores T. rex já encontrados. O esqueleto possui 183 elementos ósseos fossilizados, sendo considerado cerca de 61% completo pela quantidade de ossos ou entre 75% e 80% completo pela massa.
Debate sobre ciência e propriedade privada
Apesar da grandiosidade da descoberta, Gus também representa uma discussão dentro da paleontologia. Especialistas afirmam que fósseis importantes podem desaparecer da pesquisa científica quando acabam nas mãos de colecionadores particulares.
Segundo Stuart Sumida, professor de biologia da Universidade Estadual da Califórnia e presidente da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados, um fóssil vendido para uma coleção privada pode nunca mais ser disponibilizado para estudos.
A organização defende que seus pesquisadores estudem apenas espécimes mantidos em coleções públicas, já que outros cientistas precisam ter acesso aos mesmos materiais para realizar novas análises.
A ausência de estudos científicos formais sobre Gus está relacionada justamente à sua possível venda. Pesquisadores afirmam que revistas científicas respeitadas normalmente não publicam trabalhos baseados em fósseis que não estejam disponíveis ao público.
Recorde entre fósseis
A Sotheby’s estima que Gus possa alcançar até US$ 30 milhões no leilão, mas vendas anteriores mostram que o valor final pode superar expectativas. O Estegossauro Apex, por exemplo, tinha uma estimativa de até US$ 6 milhões antes de ser vendido por US$ 44,6 milhões em 2024.
Além do tamanho e do estado de preservação, Gus possui características consideradas atrativas para compradores, como um crânio com cerca de 82% dos ossos originais preservados e componentes raramente encontrados, como uma fúrcula, uma pélvis completa e os dois pés bem preservados.
Enquanto especialistas divergem sobre o destino ideal do fóssil, Gus representa um dos maiores símbolos do conflito entre preservação científica, mercado de colecionadores e o interesse público em conhecer a história da vida na Terra.
*Sob supervisão de Giovanna Gomes