Lobos foram levados por humanos a ilha remota na Suécia há 5 mil anos, diz estudo
Análise genética aponta que dois lobos encontrados em ilha sueca foram transportados por pessoas e conviveram com humanos há milênios

Pesquisadores identificaram os restos mortais de dois lobos-cinzentos que viveram entre 3.000 e 5.000 anos atrás em Stora Karlso, uma pequena ilha sueca no Mar Báltico, e concluíram que os animais provavelmente foram levados ao local por seres humanos. A descoberta reforça a hipótese de que populações humanas mantiveram relações próximas com lobos muito tempo depois do surgimento dos cães domesticados.
O estudo foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences e teve como ponto de partida uma antiga coleção de ossos encontrada na caverna de Stora Forvar, utilizada por caçadores de focas e pescadores durante o Neolítico e a Idade do Bronze. A ilha, com cerca de 2,6 quilômetros quadrados, nunca esteve ligada ao continente, o que torna improvável que os animais tenham chegado ao local por conta própria.
Segundo os pesquisadores, a presença dos lobos na ilha só pode ser explicada por transporte humano, provavelmente por barco. Além disso, evidências indicam que os animais continuaram sendo alimentados e cuidados pelas comunidades que ocupavam a região.
Descoberta surpreendente
A descoberta surpreendeu a equipe responsável pela pesquisa. “Eles não só tinham uma ancestralidade indistinguível da de outros lobos eurasiáticos, como também pareciam viver ao lado de humanos, alimentando-se de sua comida, em um local que só poderiam ter alcançado de barco”, afirmou, em comunicado, Linus Girdland-Flink, arqueólogo da Universidade de Aberdeen e autor principal do estudo.
Os restos mortais haviam sido escavados originalmente no fim do século 19, quando arqueólogos encontraram diversos ossos de canídeos na caverna. Na época, surgiu a dúvida se eles pertenciam a cães ou lobos. Como a distinção entre as duas espécies apenas pela análise dos ossos pode ser difícil, os cientistas recorreram a testes genéticos para esclarecer a questão.
As análises de DNA confirmaram que ambos os animais eram lobos-cinzentos, sem qualquer sinal de ancestralidade canina. O resultado surpreendeu até os próprios pesquisadores. “Isso foi uma ‘completa surpresa’”, declarou, em comunicado, o coautor Pontus Skoglund, geneticista do Instituto Francis Crick, na Inglaterra.
Embora geneticamente fossem lobos, os animais apresentavam características que indicam convivência estreita com seres humanos. A alimentação dos dois era composta principalmente por focas e peixes, os mesmos alimentos consumidos pelas populações que ocupavam Stora Karlso naquele período.
Os pesquisadores também observaram que ambos eram relativamente pequenos. Um dos exemplares apresentava um gene que pode indicar seleção artificial e possuía lesões ou algum tipo de enfermidade que provavelmente comprometia sua mobilidade.
Segundo os autores, esse quadro torna improvável que o animal conseguisse sobreviver exclusivamente por meio da caça ou da procura por carcaças, repercute a Smithsonian Magazine.
“Isso sugere que as pessoas que usavam ou ocupavam Stora Karlso interagiam, pelo menos ocasionalmente, com lobos de uma maneira que implica que exerciam algum grau de controle sobre esses animais”, disse Girdland-Flink à ZME Science.
As evidências também ampliam o debate sobre a domesticação dos cães. Atualmente, estima-se que eles tenham sido domesticados entre 14 mil e 16 mil anos atrás, a partir de uma população ancestral de lobos. No entanto, os exemplares encontrados em Stora Karlso demonstram que a relação entre humanos e lobos permaneceu ativa milhares de anos depois desse processo.
Para Skoglund, o caso não indica necessariamente uma nova tentativa de domesticação, mas revela uma convivência incomum. “Este é um caso provocativo que levanta a possibilidade de que, em certos ambientes, os humanos foram capazes de manter lobos em seus assentamentos e encontraram valor nisso”, diz Skoglund no comunicado.