Cientistas descobrem quatro novas linhagens de cacau no Peru
Estudo revela diversidade inédita entre cacau peruano e identifica grupos com potencial para produzir chocolates finos de alta qualidade

Pesquisadores identificaram quatro linhagens genéticas de cacau até então desconhecidas ao analisar centenas de cacaueiros cultivados em comunidades indígenas do Peru. A descoberta, publicada na revista científica PLOS One, amplia o conhecimento sobre a diversidade genética da espécie e pode contribuir tanto para a conservação dessas variedades quanto para o desenvolvimento da produção de chocolates finos.
O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade das Índias Ocidentais, em Trinidad e Tobago, e da Universidade Nacional Toribio Rodríguez de Mendoza, no Peru. Ao todo, foram examinadas 390 árvores de cacau silvestres e semissilvestres distribuídas por propriedades indígenas em diferentes regiões do país.
Grande parte desses cacaueiros nunca passou por processos intensivos de melhoramento genético ou engenharia genética, preservando características naturais acumuladas ao longo de milhares de anos. Até recentemente, acreditava-se que as variedades de cacau cultivadas no Peru e em outros países sul-americanos poderiam ser agrupadas em dez grandes linhagens, definidas com base em suas semelhanças genéticas. No entanto, estudos recentes vêm indicando que essa classificação é mais complexa do que se imaginava.
Biodiversidade do cacau
Para investigar essa diversidade, os pesquisadores analisaram milhares de polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs), pequenas variações presentes no DNA que funcionam como marcadores genéticos. A técnica permitiu identificar não apenas os dez grupos já conhecidos, mas também quatro novas linhagens que nunca haviam sido descritas pela ciência.
Além disso, a pesquisa mostrou que diferentes regiões do Peru apresentam assinaturas genéticas próprias, evidenciando que a diversidade do cacau peruano é ainda maior do que se estimava.
Entre as novas linhagens identificadas, duas despertaram especial interesse dos cientistas. De acordo com a análise genética, elas apresentam características ancestrais associadas à produção de amêndoas de qualidade superior, com potencial para originar chocolates de sabor mais refinado e valorizados pelo mercado especializado.
O estudo também trouxe novas informações sobre a origem genética da variedade CCN 51, uma das mais cultivadas no mundo por combinar alta produtividade com resistência a doenças, esclarecendo aspectos de sua ancestralidade que permaneciam pouco compreendidos.
Segundo os autores, os resultados representam um importante avanço para programas de conservação da biodiversidade e para o fortalecimento da cacauicultura peruana. Ao compreender melhor a riqueza genética das variedades nativas, será possível preservar recursos valiosos e utilizá-los em futuros programas de melhoramento.
Os pesquisadores destacaram ainda que um dos aspectos mais marcantes da pesquisa foi encontrar esse patrimônio genético fora de bancos de sementes ou laboratórios. Em vez disso, as árvores estavam preservadas em sistemas agrícolas tradicionais mantidos por comunidades indígenas, desde a Amazônia peruana até as regiões próximas à Cordilheira dos Andes, aguardando reconhecimento por seu potencial científico e econômico.